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30 abril, 2018

O trabalho liberta?

Artigo também publicado no portal O Povo Online/Blog do Eliomarem 30/04/18

A palavra trabalho tem sua origem no latim Tripalium (três paus), que era um instrumento romano de tortura, no qual se castigava os escravos.

Na entrada do campo de concentração de Auschwitz, onde foram mortos a mando de Adolf Hitler mais de um milhão de judeus, estava escrito “O trabalho liberta”.

O mito grego de Sísifo também pode ser compreendido como uma metáfora do trabalho. Castigado pelos deuses, todos os dias Sísifo tinha de subir uma montanha empurrando a mesma pedra, que rolava de volta. E tal como ele, seguimos.

Para a crise vivida hoje pelo capitalismo, não há saída dentro do horizonte do sistema. A microeletrônica e a quarta revolução industrial cada vez mais expulsam o trabalho vivo da produção de mercadorias. Sem trabalho vivo não há mais-valia. E quem não trabalha não tem dinheiro para consumir. Eis o impasse.

Paradoxalmente, as mesmas condições que permitiriam uma grande redução da quantidade de trabalho, uma vida melhor e mais tempo livre e criativo, são aquelas que estão gerando mais miséria e privação, obrigando aos que ainda encontram empregos a submeterem-se a longas jornadas de trabalho e a toda sorte de abusos.

Neste quadro, o Estado tem sido usado descaradamente para garantir a sobrevivência e o lucro de empresas, bancos e corporações, retirando o que resta de direitos mínimos através do Executivo, Legislativo e Judiciário, com o apoio da mídia e uso cada vez maior do aparelho repressivo.

Usando a máxima neoliberal de que "qualquer emprego é melhor do que nenhum", as reformas iniciadas nos governos petistas foram aceleradas no governo Temer com brutal perda de direitos e desemprego recorde. E os postos de trabalho perdidos não voltarão.

Hoje mais do que nunca, o movimento dos trabalhadores se encontra atrelado ao capital e refém da crise. Capital e trabalho agem como dois lados da mesma moeda. Representantes dos trabalhadores, salvo raríssimas exceções, se propõem meramente a fazer uma melhor gestão da crise, a cobrar de forma bem-comportada direitos perdidos e a defender uma democracia sem povo. Nem se cogita em aprofundar a crítica ao sistema, às suas categorias e a seus representantes visando uma ruptura com o mesmo. E assim segue a valsa no convés no Titanic.

Termino com duas citações bastante atuais:

“Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,
onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo”

(Carlos Drummond de Andrade, Elegia 1938)

“O trabalhador só se sente consigo mesmo fora do trabalho, enquanto que no trabalho se sente fora de si. Ele está em casa quando não trabalha, quando trabalha não está em casa. Seu trabalho, por isso, não é voluntário, mas constrangido, é trabalho forçado. Por isso, não é a satisfação de uma necessidade, mas apenas um meio de satisfazer necessidades exteriores a ele mesmo. A estranheza do trabalho revela sua forma pura no fato de que, desde que não exista nenhuma coerção física ou outra qualquer; foge-se dele como se fosse uma peste.” 
(Karl Marx, Manuscritos Econômico-Filosóficos, 1844)

06 março, 2018

O passado não é mais como era antigamente



Artigo também publicado no portal O Povo/Blog do Eliomar em 06/03/18

Quem controla o passado, controla o futuro; quem controla o presente, controla o passado...

A frase acima do livro 1984, de George Orwell, publicado em 1949, é um dos casos em que a vida imita a arte. Desde há muito tempo os poderosos sonham com a possibilidade de controlar a história e mais que isso: a memória, as recordações das pessoas. Hoje com o big data, a globalização e o consumo de informações de forma quase que exclusivamente virtual, isto já está acontecendo. Assim, a história pode ser constantemente reescrita, ter passagens suprimidas ou acrescidas ao bel prazer de um punhado de milionários, governos e corporações. E o valor disto para estes é incomensurável, afinal quem controla o passado…

Quanto vale, por exemplo, para a Wolkswagen apagar da sua história o fato de que usou mão de obra escrava fornecida pelo nazismo em suas fábricas durante a II Guerra Mundial?

O quanto é importante para os donos do jornal Folha de São Paulo fazer esquecer o fato de que apoiaram e financiaram a ditadura militar brasileira iniciada com o golpe de 1964?

O que o pré-candidato à presidência, Jair Bolsonaro, que hoje posa de machão e defende o armamento de todos como parte da solução para a violência, daria para fazer esquecer o momento em que armado, foi assaltado, não reagiu, entregou a moto e a pistola aos dois assaltantes e ainda disse “mesmo armado, me senti indefeso”?

Os casos acima são exemplos bem conhecidos e dos quais restam registros, mas e os milhares, senão milhões de outros que ocorreram, estão ocorrendo e vão ocorrer?

Em seu livro Sociedade do Espetáculo (1968), Guy Debord falando dos regimes totalitários diz que “O projeto, já formulado por Napoleão, de ‘dirigir monarquicamente a energia das recordações’ encontrou a sua concretização total numa manipulação permanente do passado, não só nos significados mas também nos fatos’.

Este ano o governo chinês proibiu mencionar em redes sociais palavras e termos críticos ao Partido Comunista e ao ditador chinês, Xi Jinping. Entre os vários termos, curiosamente estão os livros “1984” e "Revolução dos Bichos", de Orwell. Se você quiser escrever determinadas palavras, simplesmente as mesmas não serão publicadas e nem buscas feitas pelos termos proibidos.

O desaparecimento, a proibição, a não divulgação e a alteração de conteúdo vem sendo cada vez mais constantes. Há muito que ativistas como Julian Assange, do Wikileaks, denunciam estes fatos. Em seu livro “O Filtro Invisivel”, Eli Pariser chama atenção para a s bolhas criadas pelo Google, Facebook, Amazon e outros, para que seus acessos, resultados de busca e etc. sejam controlados e direcionados.

No livro “Quando O Google encontrou o Wikileaks”, Assange cita o caso de artigos tirados do ar ainda em 2003 pelo jornal inglês Guardian e de sites que denunciaram construtoras e que não encontraram mais servidores que quisessem mantê-los online.

Em agosto de 2017, um dos maiores portais de notícia do Ceará simplesmente sumiu do dia para a noite com uma notícia que tratava da remoção da defesa das dunas do parque do Cocó. E os exemplos são muitos.

Mas o arsenal de manipulação vai além. Donald Trump, presidente norte-americano eleito com base em mentiras, é um dos maiores expoentes da pós-verdade, na qual não importam os fatos reais, o que aconteceu, mas sim no que se acredita. Trump usa largamente as redes sociais para falar diretamente a seus seguidores, evitando a imprensa e atacando jornalistas e veículos que podem contestá-lo.

Muitos outros políticos seguem seu exemplo e buscam dirigir-se diretamente a seu público. O governador do Ceará, Camilo Santana (PT), é um deles. Ele usa seu perfil para anunciar obras e ações, dar broncas em secretários e até para divulgar reajuste salarial dos servidores. Na era da pós-verdade, é mais cômodo fazer monólogo.

Vivemos em uma era na qual ao comprar uma TV já aceitamos ser gravados em casa, temos nossa privacidade violada por aplicativos em computadores e smartphones, somos vigiados por milhares de câmeras nas ruas e em locais privados e até mesmo nosso direito à memória e a história nos está sendo negado.

16 fevereiro, 2018

Intervenção federal no RJ não visa resolver problema de Segurança Pública

Artigo também publicado no Portal O Povo Online/Blog do Eliomar em 16/02/18

O Decreto de Michel Temer(PMDB) sobre intervenção federal no RJ pretende resolver vários problemas do governo, mas nenhum ligado à Segurança Pública. O que os militares vão fazer no RJ que já não fizeram anteriormente?

Com o decreto, a pauta do Congresso fica travada até a aprovação e a reforma da Previdência não será votada no período previsto, havendo menos desgaste para o governo.

Isso corta as asas de César Maia (DEM), que já havia pautado a votação da reforma sabendo que não ia ser aprovada mesmo, visando posar de bom moço e se cacifar para as eleições de 2018.

Junto à intervenção, que abre precedente perigoso, Temer trata da criação do Ministério da Segurança, que deve vir para militarizar ainda mais o tratamento da questão da violência e aumentar os lucros com o negócio do encarceramento em massa e da guerra aos pobres (vulgo guerra às drogas). Investimentos sociais e discussão da política de descriminalização são esquecidos. Vale a pena pesquisar sobre quem lucra com empresas de segurança, venda de armas, venda de refeições para presídios, programas policialescos, construção de presídios e candidatos que se elegem com o discurso de “bandido bom é bandido morto”, enquanto eles mesmos continuam vivos e lucrando.

Se criado, o Ministério da Segurança deve tutelar a PF podendo limitar seu papel. Também pode servir de instrumento pra intensificar a criminalização de movimentos sociais e ativistas com base na legislação e estrutura deixadas por governos petistas.

Tudo isto tem muito a ver com a situação do Ceará, que em matéria de violência está bem próximo do Rio de Janeiro.



Ontem o líder do governo na Assembleia Legislativa, deputado Evandro Leitão (PDT) disse que não endossava a CPI do narcotráfico porque era chefe de família e temia a violência. Se um deputado, líder do governo, alega não assinar CPI temendo violência, o que dizer das pessoas comuns? Perguntar não ofende: o medo é o único motivador do deputado ou há razões políticas e esta CPI poderia aprofundar a crise da Segurança Pública em ano eleitoral?

29 janeiro, 2018

A Segurança Pública e a bacia de Pilatos

Artigo também publicado no portal O Povo/Blog do Eliomar
“Meninas de 13 e 14 anos têm tido seus ossos quebrados, corpos mutilados e vidas ceifadas por serem consideradas ‘marmitas’ de facções, de pessoas de uma facção inimiga”.
O trecho acima é parte de uma Nota do Fórum Popular De Segurança Pública sobre a chacina ocorrida no bairro Cajazeiras na qual 14 pessoas foram assassinadas e alerta para um dos segmentos mais vulneráveis à barbárie e à violência que tomou conta de Fortaleza e do Ceará: as adolescentes. No morticínio em Cajazeiras, duas das vítimas eram do sexo feminino e menores de idade.

Longe de ser um fato isolado, como afirma o secretário de Segurança, as chacinas, os assassinados, o medo, a tortura e a crueldade se transformaram em rotina na periferia de Fortaleza e em cidades do interior.

A verdade nua e crua é que o Governo do Ceará perdeu completamente o controle sobre a violência no estado. Vejamos:

Número recorde de assassinatos em 2017 chegando a 5.114 assassinatos e que continua disparado este ano. E este número não leva em conta os que foram mortos em confronto com a polícia.

Pessoas tendo que abandonar seus lares por ordem do crime organizado e com a polícia servindo de escolta, como aconteceu nos bairros Lagamar e na comunidade do Barroso.

Direito de ir e vir restrito com toda a periferia de Fortaleza pichada com as frases “baixe o vidro, tire o capacete”.

Paranoia, linchamentos e reações absurdas como a do indivíduo que disparou dez tiros dentro de um ônibus porque outro homem havia pulado a catraca, matando além deste, uma passageira inocente que voltava do trabalho para casa.

Insegurança dentro do próprio lar, como a de um pai de família que foi retirado à noite de dentro de casa, na frente da mulher e dos filhos, e posteriormente assassinado, simplesmente porque seu irmão era amigo de infância de um integrante de uma facção rival daquela que o atacou.

Mas a face mais perversa do crime se volta contra as adolescentes pobres da periferia de Fortaleza e do interior do estado.

Há casos de meninas sendo arrastadas de dentro de um ônibus para serem torturadas e mortas simplesmente porque se recusaram a fazer um sinal com os dedos ou porque moravam em um bairro de uma facção rival.

Garotas decapitadas e com a cabeça deixada de dentro de caixas de papelão. Garotas torturadas e queimadas. Seviciadas da pior forma possível e enterradas em covas rasas ou com corpos abandonados no meio da rua. À crueldade dos criminosos e ao sadismo, soma-se o machismo que impera na sociedade. A sensação de impunidade e o medo da população podem estimular outros crimes, como o do maníaco que no réveillon espancou e torturou até a morte sua ex-namorada e ficou depois passeando tranquilamente com o corpo na garupa de uma moto pelas ruas do Mondubim, até se cansar e jogar o cadáver às margens de uma lagoa. Até hoje continua solto, como muitos outros.

Outros governadores, em situações não tão críticas, ao menos trocavam o secretário de Segurança. Camilo Santana nem isso. Começou negando a existência das facções, depois adotou discurso de que a culpa pelos homicídios era das vítimas pois a maioria era envolvida com drogas e mais recentemente passou a culpar o governo federal.

E a Prefeitura? Sua contribuição é armar 100 guardas municipais e instalar duas torres de vigilância, sendo que uma já foi destruída ainda na fase de construção? Isso vai resolver o que?

Se os governos agem assim, cadê a sociedade civil? O que está fazendo o Ministério Público? A OAB? A Igreja? As igrejas? Onde está o movimento Fortaleza Apavorada que por bem menos que a situação atual fez um escarcéu? E o pessoal que para criminalizar o aborto bota trio elétrico na rua, faz show com cantora famosa e passeata na Beira-Mar? Contra a morte de crianças e adolescentes não vão mover uma palha? E os partidos que para pedir a prisão ou a não prisão do Lula fazem atos e mais atos? E as centrais sindicais?

Se essas adolescentes tratadas como marmitas, violadas, torturadas e mortas, não fossem jovens pobres da periferia, mas morassem no Dunas, na Aldeota, no Meireles, a situação teria chegado a este ponto? Por que uma frívola briga por batatas em uma sanduicheria vira destaque na mídia e os crimes contra essas jovens só aparecem de forma rápida nos programas policialescos?

Já pensou se elas fossem filhas ou irmãs das “autoridades”? Já pensou se uma delas fosse sua filha ou sua irmã?

A bacia de Pilatos na qual muitos estão lavando as mãos não está cheia de água de rosas, mas sim de sangue inocente. E se nada for feito agora, este sangue em breve poderá ser  seu ou da sua família.

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