25 agosto, 2016

Bolacha, suco e cadeia

Foto da Ocupação da Esc. de Ensino Fundamental e Médio João Mattos
Artigo inicialmente publicado no Blog do Eliomar 
E no portal Brasil de Fato
 
Foto da Ocupação da Esc. de Ensino Fundamental e Médio João Mattos

Cerca de 320 estudantes de 25 escolas do Ceará estão sob investigação da Polícia Civil a pedido do governo Camilo Santana (PT) através da Secretaria de Educação do Estado (Seduc).
A criminalização dos estudantes supostamente se deve a danos causados ao patrimônio público durante a ocupação de mais de 60 escolas no mesmo período em que  professores estaduais estavam em greve, que durou 107 dias.

A greve dos professores, que não teve suas reivindicações atendidas, terminou dia 09/08 de forma no mínimo polêmica: parte da categoria acusando a direção do sindicato de fraudar resultado da assembleia e acabar a paralisação na marra.

No caso dos estudantes, além de não atender as reivindicações, o governo agora acena com a cadeia.
O que motivou as ocupações de escolas no Ceará, como em outros estados,  foi a luta por direitos básicos da educação.

Muitas escolas estão com a estrutura física comprometida com tetos caindo e paredes mofadas. Há deficiências nos laboratórios, quadras e bibliotecas e água contaminada nos bebedouros. A merenda escolar não cumpre o cardápio divulgado pela própria Seduc, sendo que em muitas unidades se resume a bolachas e suco aguado. Relatório do Centro de Defesa da Criança e do Adolescente (Cedeca) mostrou que no primeiro quadrimestre de 2016, o Governo do Ceará gastou com a merenda menos do que recebeu da União: um custo diário miserável de R$ 0,30 por aluno.

Some-se a isso a situação crítica dos professores, não só com relação a questão salarial, e vemos  motivos de sobra para a justa luta dos estudantes.

A perseguição às ocupações teve inicio antes mesmo de seu término. Estudantes denunciaram na imprensa que, ao ir ou vir das escolas ocupadas, eram seguidos por carros descaracterizados. Tinham ações monitoradas. Sofriam intimidação.

A tentativa de criminalização dos estudantes pelo governo Camilo Santana  se insere em um ataque mais amplo aos movimentos sociais e ativistas, o que a torna ainda mais inaceitável.

Desde as manifestações de 2013 que o aparato repressivo  do Estado é usado de forma mais ostensiva para barrar lutas, intimidar e prender aqueles que se mobilizam. Em São Paulo, por exemplo, o governo Alckmin também tentou criminalizar estudantes que ocuparam escolas. Juntos, o PT, PMDB, PSDB e outros, aprovaram a famigerada Lei Antiterror, sancionada por Dilma Rousseff e que já está sendo usada para prender manifestantes.

A situação dos estudantes cearenses é tão séria que motivou a Defensoria Pública a impetrar um  habeas corpus coletivo e preventivo em defesa dos mesmos. Segundo integrantes da Defensoria, não houve prazo viável em apenas um dia para que os supostos danos às escolas fossem efetivamente verificados pela Seduc. Há casos ridículos como uma denúncia por uso de material de cozinha durante a ocupação de uma escola ou outra denúncia tratando de pichações nas paredes, que de fato eram notas musicais desenhadas em uma sala de música, o que mostra que a criminalização é uma perseguição política.

Lamentável também que, conforme a Seduc, foi um ofício do Ministério Público do Estado do Ceará (MPCE) que pediu a vistoria nas escolas, avalizando o procedimento. Se o MPCE está preocupado com quem causa danos à educação, deveria intensificar a fiscalização e agir com maior rigor quando se trata dos gestores públicos, a exemplo do governador e de muitos prefeitos.

Creio ser fundamental que entidades de classe, movimentos sociais, religiosos, parlamentares, comunicadores, toda a sociedade civil organizada enfim, apoie os estudantes e manifeste seu repúdio a esta criminalização absurda.

Nossa juventude merece bem mais do que bolacha, suco e cadeia.

Links consultados:

http://www.cedecaceara.org.br/wp-content/uploads/2016/05/Nota-t%C3%A9cnica-educa%C3%A7%C3%A3o-2016-curvas.pdf

http://www.opovo.com.br/app/fortaleza/2016/08/23/noticiafortaleza,3651517/mais-de-300-estudantes-sao-citados-em-investigacao-da-policia-civil-so.shtml

http://www.opovo.com.br/app/opovo/cotidiano/2016/08/24/noticiasjornalcotidiano,3651687/defensoria-pede-habeas-corpus-para-estudantes-que-ocuparam-escolas.shtml

http://tribunadoceara.uol.com.br/noticias/educacao/bolacha-com-suco-relatorio-aponta-que-governo-investiu-abaixo-do-minimo-na-merenda-escolar/

http://www.cedecaceara.org.br/seduc-solicita-investigacao-para-mais-de-300-estudantes-secundaristas/

10 agosto, 2016

Caçando pokémons, alimentando Satan Goss


Artigo também publicado no Blog do Eliomar

O Pokémon Go é um dos experimentos mais bem sucedidos lançados até hoje pelas corporações que lidam com a vigilância massiva. Já superou a marca dos 100 milhões de downloads.

O game se baseia na realidade aumentada, combinando elementos virtuais (os pokémons) com o ambiente real. Virou sucesso instantâneo graças à divulgação agressiva e à cobertura ampla e favorável da mídia.

O nível de intrusão e vigilância imposto ao usuário vai muito além do que é usado hoje pelo Google e Facebook.

Para jogar, você tem que estar com o smartphone conectado à internet e dar permissões para acesso à câmera, microfone, giroscópio, GPS e dispositivos conectados. Ele pode dizer aonde você vai, quando e como foi, quanto tempo ficou e quem mais estava lá.

O jogo foi desenvolvido pela Niantic Labs e tem à frente da equipe John Hanke, o mesmo homem envolvido no escândalo do Google Street View, cujos carros que circularam pelas maiores cidades do planeta capturavam não só fotos das ruas, mas dados de conexão wifi, e-mails, senhas, prontuários médicos, informações financeiras, arquivos de áudio e vídeo e o que mais pudessem. Tudo obviamente sem o conhecimento ou autorização das pessoas. Antes do Google e da Niantic, Hanke era dono da Keyhole, uma empresa comprovadamente financiada pela CIA e que trabalhou com coleta de imagens geográficas. A Niantic Labs conta hoje com investimentos do Google, que também comprou parte dos direitos da Keyhole para usar no Google Maps.

Um dos grandes desafios ainda não superados pelos satélites militares e pelos carros do Google Street View era mapear o interior de residências, prédios públicos, áreas cobertas etc. Com o Pokemon Go, isto é possível. Como brinde, recebem informações sobre os hábitos dos usuários e de quem os cerca. Há pokemons a serem caçados nas sedes dos governos, gabinetes parlamentares, escritórios, casas de amigos, motéis, em todos os lugares enfim. O Google já havia tentado algo semelhante com o Google Glass, mas descobriu que é muito melhor usar smartphones.

A licença do jogo, que pouquíssimos usuários se deram ao trabalho de ler, é altamente permissiva e deixa claro que quaisquer dados coletados poderão ser usados pelos fabricantes e ainda repassados a agências do governo e companhias privadas.

Na antiga série de TV Jaspion, o vilão se chamava Satan Goss, uma espécie de Darth Vader japonês que transformava seres pacíficos em demônios furiosos. Longe de ser um joguinho inocente, o Pokémon Go está nos tornando espiões de nós mesmos.

Ilustração: Banksi

Links consultados:

09 agosto, 2016

Resolvendo problema com a instalação de extensões no Joomla 3.6.x

O Joomla é um excelente CMS. Fácil de usar, robusto e seguro. Mas ás vezes (e nem sempre devido ao próprio core do CMS, mas a extensões, configurações de servidores etc.) os usuários enfrentam dificuldades.
É nessas horas que entra em cena a comunidade compartilhando conhecimento e soluções. Queria assim compartilhar esta dica relativa a um problema que tive ao atualizar da versão 3.6.0 para a versão 3.6.2 (a 3.6.1 teve problemas e no dia seguinte ao seu lançamento, foi apresentada a versão seguinte).
Quando atualizei e acessei o menu de extensões, o Joomla passou a avisar que um plugin de instalação estava desativado. Notei que as abas de instalação de extensões via pasta, upload e URL tinham sumido. Seguindo o aviso busquei plugins de instalação desativados , mas não encontrei.
Pesquisando, descobri que para remediar o problema basta logar no administrador, acessar  → Extensões-→Descobrir (se não aparecem os respectivos plugins clique novamente em Descobrir) e instalar novamente os plugins relativos as abas descritas acima.
Após a instalação, faça uma busca pelos plugins com “installer” e ative-os. E pronto!
Importante: quando pesquisei, vi que o problema pode acontecer a partir da atualização para a versão 3.6.0.

04 agosto, 2016

Togas contraditórias

É manchete hoje nos principais jornais cearense a decisão do STF que derruba leis estaduais que obrigam operadoras a bloquearem o sinal de telefonia em áreas onde se localizam presídios. Dito de outro modo: só a União pode legislar sobre estes bloquieos.
A decisão discutiu ações da Associação Nacional das Operadoras de Celular contra leis dos  estados da Bahia, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Paraná e Santa Catarina, abrindo jurisprudência para ser aplicada no Ceará e em outros estados.
Desde o primeiro semestre deste ano que Fortaleza e outras cidades cearenses sofrem com onda de violência provocada por facções criminosas (PCC, Comando Vermelho, Guardiões do Estado) que não aceitam restrições e querem continuar usando livremente smartphones nos presídios.
Sobre a decisão do STF, tenho três observações:
1) Governadores que tentaram implantar bloqueios, particularmente o governador do Ceará, Camilo Santana (PT), devem estar levantando as mãos para os céu e agradecendo a decisão do STF pois tira-lhes a responsabilidade das costas. Organizações criminosas também ficam gratas.
2) Integrantes do judiciário que quiseram fechar, banir e multar a empresa responsável pelo WhatsApp para obrigá-la  a entregar dados de usuários favorecendo a vigilância massiva e atentando contra a privacidade e a liberdade de expressão, sob a alegativa de que o WhatsApp estimula a criminalidade, deveriam ser consequentes e agora pedir o fechamento do STF, multa e banimento dos ministros. Por sua lógica, a decisão do Supremo também estimula o crime pois permite que de imediato os bloqueios sejam suspensos ou nem mesmo implantados.
3) Como mostrou reportagem da Motherboard Brasil, o Exército e órgãos de segurança estaduais estão adquirindo  várias parafernálias eletrônicas para a vigilância massiva, usando para isso o mote da segurança nas Olimpíadas. Entre elas, aparelhos similares a torres de celular. Estes aparelhos podem interceptar o sinal de toda uma área, Instalar malwares nos aparelhos, capturar dados de todos os usuários ou mesmo bloquear o sinal. Muito útil contra manifestações. O STF ou algum outro membro do Judiciário disse algo sobre isso? Se disse, desconheço.
A máxima romana “sed lex, dura lex” (é a lei, dura lei), no Brasil permanece “sed lex, dura látex” ou (a lei é dura, mas estica).

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