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09 dezembro, 2021

Uma gente careta e covarde

 


O que leva uma pessoa na condição social desse catador a pendurar esse trapo verde e amarelo em seu carrinho? Patriotismo por um país que o leva, devido ao desemprego, a um trabalho desumano e brutal, condição compartilhada por milhões, alguns até em situação pior? Tática de sobrevivência para não ser atropelado ou agredido por bolsominions, aqueles que odeiam pobres ? Um misto?

O que nos leva a aceitar passivamente, como se estivéssemos dopados, o genocídio, a corrupção escancarada, o aparelhamento das instituições e órgãos públicos e  a destruição do país?

A continuidade do governo Bolsonaro, o genocídio e essa destruição só são possíveis devido a Lira e a Pacheco (antes Maia e Alcolumbre), à maioria desse Congresso, constituída de criminosos, picaretas e vendidos, a Aras e ao acovardamento do STF.

As Forças Armadas são também mais que cúmplices. São artificies desse projeto, que teria naufragado sem a valiosa ajuda de Moro, Dallagnol, Tasso, Dória etc. Por trás, os grandes empresários, banqueiros, latifundiários e especuladores. É o óbvio, mas as vezes é preciso dizê-lo.

Seguimos rumo à barbárie e a destruição em um capitalismo ecocida e genocida, amparado pelas tecnologias da informação e com uma comunicação mediada por algoritmos. Meros espectadores do espetáculo do fim do mundo. Pessoas miseráveis. “Essa gente careta e covarde”.


Texto também publicad nos portais Segunda Opinião e O Povo Online

26 agosto, 2021

“Marco temporal”: não verás país nenhum?

 

 Créditos: APIB



O STF deve votar nesta quinta-feira, 26, o “marco temporal”, que trata sobre a demarcação de terras indígenas. A votação deveria ter ocorrido ontem, mas foi novamente adiada, sendo este o quarto adiamento em dois meses. Basicamente o “marco temporal” propõe delimitar apenas os territórios ocupados por indígenas antes de 1988. Aproximadamente sete mil indígenas estão acampados em Brasília para acompanhar o julgamento.


Se aprovado pelo STF, o “marco temporal” será um golpe definitivo na resistência à política de destruição ambiental e de direitos dos povos originários que vem sendo aplicada no país. O julgamento já começa de forma errada pois vão julgar um único caso (pedido de reintegração de posse do governo de Santa Catarina contra o povo Xokleng) tendo este julgamento repercussão geral em todo o país.


Se esse absurdo for aprovado, fortalecerá a política criminosa do governo de extrema direita de Jair Bolsonaro e de seus aliados, que vem destruindo o meio ambiente, desrespeitando a vida e os direitos dos povos originários e cometendo um verdadeiro ecocídio.


Até maio de 2020, o governo já havia autorizado mais de 250 mil hectares de fazendas em terras indígenas, sendo que parte delas foram autorizadas antes da Funai permitir registro em terras não homologadas.


Na terra indígena Yanomami, garimpeiros atacam aldeias a tiros e a facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC) está ligada à atividade de garimpos ilegais em terras indígenas e à lavagem de dinheiro usando ouro. Segundo o governador de Roraima, Antonio Denarium (sem partido), “todo o ouro produzido no estado de Roraima sai clandestino do estado”. Os bolsonaristas preferem negar essa realidade e culpar mais uma vez ONGs internacionais.





“A extração de 1kg de ouro de aluvião gera em média 7 hectares de desmatamento e erosão de 15 mil m³ de solo. Uma área demora 30 anos para recuperação de 80% dos serviços ecossistêmicos” (Pedro Gasparinetti, diretor da Conservação Estratégica (CSF-Brasil).


O governo Bolsonaro entupiu os órgãos de fiscalização (Ibama, Funai) de militares e desrespeitou a legislação que estabelece critérios mínimos de formação profissional e acadêmica para fazer isso. Em 2021, o Ricardo Salles e o Ministério do Meio Ambiente foram alvos de operação da PF. Despacho de Salles permitiu a regularização de mais de 8 mil cargas de madeiras exportadas ilegalmente entre 2019 e 2020.


Por sua vez, o tráfico de produtos florestais, principalmente madeira, tem servido de maquiagem para o tráfico de drogas do Brasil para a Europa. Foram identificadas “16 grandes apreensões de cocaína em cargas de madeira destinadas à exportação por via marítima entre 2017 e 2021. Ao todo, as apreensões somaram cerca de 9 toneladas da droga e tinham como destino países europeus”.

Além de traficantes e garimpeiros ilegais, outros que defendem a aprovação do “marco temporal” são os integrantes do agronegócio, grandes proprietários de terras que tẽm devastado o meio ambiente para plantar soja, fazer pastagens e criar gado.

Segundo a ONG Socioambiental “Hoje, 13,8% do território brasileiro é ocupado por terras indígenas, considerando os procedimentos demarcatórios já abertos e dados do DOU. Parece muito, mas a média mundial é maior: 15%...As áreas privadas somam três vezes mais ou 41% do Brasil, segundo o IBGE. Cerca 22% do território nacional é ocupado com pastagem - mas metade disso com algum grau de degradação - e 8% com agricultura, conforme o projeto MapBiomas”.


E para quem acha que o agro é pop, há uma investigação mostrando que parte dos lucros da cocaína são lavados no agronegócio e com elos na política.


Se o “marco temporal” for barrado, poderá reduzir os eventuais danos causados pelo “PL da Grilagem” (Projeto de Lei 2633/20) e que regulariza a ocupação indevida de terras públicas e facilita o desmatamento ambiental.

Em 1981, o escritor Ignácio de Loyola Brandão publicou o romance “Não Verás País Nenhum”. Hoje mais um capítulo dessa história está sendo escrito em Brasília.

Links consultados:

https://apublica.org/2020/05/com-bolsonaro-fazendas-foram-certificadas-de-maneira-irregular-em-terras-indigenas-na-amazonia/?




20 abril, 2021

Atlante

Foto: Luís Marcos

 

Nessa semana de morte, abro espaço no blog para um texto do parceiro Luís Marcos, que celebra a vida em nossa aldeia. Publicado em 20/04/21.

As palavras de molho. Os dias de calor e o asfalto alencarino, zumbindo nos ângulos urbanos. O que é que você me diz da gente dar uma esticada até aquele bar e tomar umas doses? As ruas locais suando em bicas esse sol todo dá cinema no ato. Enquanto eu virava a terceira dose e atirava o caroço de umbu naquele terreno abandonado.

 Agora qualquer semente é importante em uma cidade que decepa árvores à toa. Um fogo dentro da alma lembrando os ancestrais Tucarijus rodando por essas áreas e fazendo churrasco de gente, comendo-lhes as almas e a carne e quem sabe até as vísceras. 

Hei véi da pra trazer uma panelada pra nós? E o parceiro rindo de canto, feito um jagunço,  porém demostrando um certo ar aristocrático nos papos. 

Eu ali colado ao balcão, rindo por dentro. Bordunas rachando quengos, flechas abrindo brechas, isso tudo pra lá de cauim; e os branquelas querendo detonar os bugres, esses negros sem alma! 

E aí chegado vamos tomar mais umas aqui ou descamba pra outro bar? Assim nos vamos por outras paisagens. O índio velho mescla-se ao meu gole violento e essas ruas já foram palco de acirradas contendas. 

E nós nem sabemos falar quase nada do dialeto da nossa gente. Eu gosto é dessas ruas mas sei que em cada curva e cada ângulo foi projetados pela sanha que também veio pela Costa. Porra esse Sol me cai bem! Hei deixa de ficar alucinando e vamos por aí nas nossas naus de álcool, pra celebrar a onda dos bugres e dos branquelas, isso sem esquecer o nosso quintal. 

Eu piso com algum receio o asfalto evoluído de Fortaleza; vez ou outra as ruas e recantos me fisgam sem o menor valor estético e se armam pra mim como o berro dos silvícolas no fervor de uma batalha. 

Vamos nessa pivete e não esquece que a nossa procura é outra. O pior de tudo é que a minha ligação xamânica com o passado me entorta pelos locais nada turísticos da cidade. Nosso encontro é com o crepúsculo e a cada onda que quebra na praia é como um verso impossível de ditar ou escrever. 

A viagem toda é o crepúsculo envergado no arco da madrugada.


Para o Cartaxo de Arruda Júnior e ii memoriam de Airton Monte.

Luis Marcos

01 abril, 2021

Uma carga da cavalaria do sarcasmo



Neste 1º de abril de 2021, Dia da Mentira e aniversário do golpe militar-civil de 1964, aproveito para publicar posfácio que fiz para o Dicionário Involucionário, do Felipe Franklin Neto. O livro foi publicado em 2019, mas continua bem atual. Segue o texto e #ForaBolsonaroGenocida



2013: milhões nas ruas do Brasil. Milhares nas ruas de Fortaleza. Os manifestantes não sabiam ao certo o que queriam (não era por vinte centavos), mas o que não queriam sim. O catalisador foi a Copa das Confederações.

Os protestos tiraram o sono da elite, dos políticos, dos especuladores, dos que se acham donos do Brasil. E eles entenderam o recado e o risco que as ruas representavam.

Nas manifestações com pauta difusa, já existia o germe desse protofascismo que vivemos em 2019. Brancos enrolados em bandeiras verde e amarelo manifestando sua tara por fardas e entregando os pivetes pretos da periferia aos policiais (infiltrados ou não). Carreiristas descarados usando grupos do Facebook para mentir, canalizar a revolta e fazer sua cavaçãozinha (O WhatsApp ainda não existia). A grande mídia criminalizando protestos e sendo porta-voz dos cidadãos de bem. E os velhos bandidos de sempre fabricando a ilusão da nova política.

Os governos, de esquerda e de direita, mandaram descer o cacete. Tiro, porrada e bomba, como fizeram antes e como fazem até hoje.

Mas nesse Brasil de 2013 também estava a semente do que poderia ter sido e ainda pode. Do enfrentamento ao status quo, do acampamento no parque do Cocó em Fortaleza, das manifestações no Makro, em frente ao Palácio da Abolição, na Serrinha. Um movimento pra negar a barbárie e quebrar a lógica do fim do mundo para onde o capitalismo nos encaminha.

E foi nesse clima que o Dicionário Involucionário saiu. Sociologia poética. Léxico fora da ordem.

Hoje, para compreender a involução que estamos vivendo, é fundamental revisitar, ainda mais de forma divertida e prazerosa, aqueles dias (e noites). (Re)ler os verbetes escritos no calor da hora. Literatura, arte, contestação, filosofia, rebeldia. Escrita automática, sarcástica e humana.

Debord escreveu o Sociedade do Espetáculo com com 221 aforismos. O Dicionário tem 188 verbetes. Em comum a denúncia do espetáculo e sua cacofonia que vai nos engolindo, cegando, embrutecendo, sufocando. “O espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas, mediatizada por imagens”.

Para romper com essa lógica, todas as armas são boas: pedras, noites, poemas… E dicionários. (Paráfrase do Leminski).

Então, mais uma arma para ajudar a enfrentar as milícias (virtuais ou não), o exército de robôs e de imbecis robotizados que odeiam a história, a filosofia, a arte, o pensamento. Que perseguem professores, sindicalistas, artistas, jornalistas e qualquer um(a) que não se submeta ao seu circo de horrores e bobagens perversas.

A jornalista Eliane Brum escreveu que “Os perversos corromperam a palavra ... Só por isso podem dizer que o Brasil está ameaçado pelo ‘comunismo’ ou que o nazismo é de 'esquerda’ ou que o aquecimento global é um 'complô marxista’...Precisamos voltar a encarnar as palavras. Ou enlouqueceremos todos. A criação do comum começa pela linguagem”. O Dicionário Involucionário sai novamente então em um momento apropriado.

Mayakovski escreveu que a cavalaria do sarcasmo era sua arma predileta. Ela continua temível. Faça bom uso.

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