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28 setembro, 2022

NO DOMINGO, ELES PASSARÃO. NÓS PASSARINHO.

 


Artigo publicado em 28/09/22. Também no Portal O Povo

Não podemos dar chance ao genocida, que ocupa o cargo de presidente, a ter mais um mês de campanha,  arrastando para um segundo turno a eleição


Domingo eu vou votar. E vou votar com a certeza de que não estamos vivendo uma eleição normal. 

Como escreveu Conrado Hübner,  professor da USP, em artigo intitulado  É voto de sobrevivência, não é voto útil:  “A eleição presidencial de 2022 converteu-se numa eleição existencial. Se quiser provas, percorra as páginas do jornal de hoje, de ontem, de amanhã. Não se compara com qualquer eleição entre 1994 e 2014. Nem mesmo à eleição de 2018. Por nenhum critério relevante. Somente a indiferença ou a cegueira à espiral da violência política, do armamento militante de grupo atiçado por filosofia política da supressão do mais fraco, levam a conclusão diferente.”

É uma eleição para começar a pôr fim à essa distopia presente na qual o Brasil se enfiou.

Um exemplo: temos 33 milhões de pessoas que não têm o que comer no país. Regredimos 30 anos em quatro. Para quem pode se alimentar, isso parece só um número. Não é. Essa fome não é a que você sente entre o almoço e o jantar. Sei porque já passei.

Não podemos dar chance ao genocida, que ocupa o cargo de presidente, a ter mais um mês de campanha,  arrastando para um segundo turno a eleição e facilitando uma  tentativa de golpe, aprofundando esse clima de ódio com agressões, assassinatos, mentiras e medo.

Bolsonaro se alimenta de ódio e confusão. Citando novamente Hubner “um segundo turno é a colher de chá que deseja: o prêmio de quatro semanas em que pode disparar, sem afetar interesses eleitorais de aliados, seu arsenal atômico”.  A eleição para presidente precisa ser resolvida em 1º turno, neste domingo.

Não há terceira via na luta contra o fascismo. Esse discurso de “despolarização” de Simone Tebet e, principalmente Ciro Gomes, podem dar a Bolsonaro o que ele quer. Até Xuxa e Angélica Huck, que já declararam voto em Lula, apresentam mais lucidez e compromisso.

Daqui até o dia 2, converse com parentes, amigos, colegas e até desconhecidos. Pergunte(se) o que melhorou na vida desde que esse elemento foi eleito. Vire votos.
E no domingo, vote contra o genocídio, o ecocídio, a fome, o fascismo e a corrupção. Lembre dos quase 700 mil mortos por covid e que muitos deles poderiam estar vivos. Lembre-se de Moa do Katendê, Marcelo Arruda, Antônio Carlos Silva e tantas outras vítimas. Vote contra a morte. Vote pela vida, pela paz e pela democracia. Citando o poeta Mário Quintana, e com a devida licença poética, quanto a esses que atravancam o nosso caminho,  “eles passarão/nós passarinho”.  Vote 13,  vote Lula!

E se for eleitor do Ceará, ouça o recado da governadora Izolda Cela: "Nem capitão cá, nem capitão lá."

09 dezembro, 2021

Uma gente careta e covarde

 


O que leva uma pessoa na condição social desse catador a pendurar esse trapo verde e amarelo em seu carrinho? Patriotismo por um país que o leva, devido ao desemprego, a um trabalho desumano e brutal, condição compartilhada por milhões, alguns até em situação pior? Tática de sobrevivência para não ser atropelado ou agredido por bolsominions, aqueles que odeiam pobres ? Um misto?

O que nos leva a aceitar passivamente, como se estivéssemos dopados, o genocídio, a corrupção escancarada, o aparelhamento das instituições e órgãos públicos e  a destruição do país?

A continuidade do governo Bolsonaro, o genocídio e essa destruição só são possíveis devido a Lira e a Pacheco (antes Maia e Alcolumbre), à maioria desse Congresso, constituída de criminosos, picaretas e vendidos, a Aras e ao acovardamento do STF.

As Forças Armadas são também mais que cúmplices. São artificies desse projeto, que teria naufragado sem a valiosa ajuda de Moro, Dallagnol, Tasso, Dória etc. Por trás, os grandes empresários, banqueiros, latifundiários e especuladores. É o óbvio, mas as vezes é preciso dizê-lo.

Seguimos rumo à barbárie e a destruição em um capitalismo ecocida e genocida, amparado pelas tecnologias da informação e com uma comunicação mediada por algoritmos. Meros espectadores do espetáculo do fim do mundo. Pessoas miseráveis. “Essa gente careta e covarde”.


Texto também publicad nos portais Segunda Opinião e O Povo Online

26 agosto, 2021

“Marco temporal”: não verás país nenhum?

 

 Créditos: APIB



O STF deve votar nesta quinta-feira, 26, o “marco temporal”, que trata sobre a demarcação de terras indígenas. A votação deveria ter ocorrido ontem, mas foi novamente adiada, sendo este o quarto adiamento em dois meses. Basicamente o “marco temporal” propõe delimitar apenas os territórios ocupados por indígenas antes de 1988. Aproximadamente sete mil indígenas estão acampados em Brasília para acompanhar o julgamento.


Se aprovado pelo STF, o “marco temporal” será um golpe definitivo na resistência à política de destruição ambiental e de direitos dos povos originários que vem sendo aplicada no país. O julgamento já começa de forma errada pois vão julgar um único caso (pedido de reintegração de posse do governo de Santa Catarina contra o povo Xokleng) tendo este julgamento repercussão geral em todo o país.


Se esse absurdo for aprovado, fortalecerá a política criminosa do governo de extrema direita de Jair Bolsonaro e de seus aliados, que vem destruindo o meio ambiente, desrespeitando a vida e os direitos dos povos originários e cometendo um verdadeiro ecocídio.


Até maio de 2020, o governo já havia autorizado mais de 250 mil hectares de fazendas em terras indígenas, sendo que parte delas foram autorizadas antes da Funai permitir registro em terras não homologadas.


Na terra indígena Yanomami, garimpeiros atacam aldeias a tiros e a facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC) está ligada à atividade de garimpos ilegais em terras indígenas e à lavagem de dinheiro usando ouro. Segundo o governador de Roraima, Antonio Denarium (sem partido), “todo o ouro produzido no estado de Roraima sai clandestino do estado”. Os bolsonaristas preferem negar essa realidade e culpar mais uma vez ONGs internacionais.





“A extração de 1kg de ouro de aluvião gera em média 7 hectares de desmatamento e erosão de 15 mil m³ de solo. Uma área demora 30 anos para recuperação de 80% dos serviços ecossistêmicos” (Pedro Gasparinetti, diretor da Conservação Estratégica (CSF-Brasil).


O governo Bolsonaro entupiu os órgãos de fiscalização (Ibama, Funai) de militares e desrespeitou a legislação que estabelece critérios mínimos de formação profissional e acadêmica para fazer isso. Em 2021, o Ricardo Salles e o Ministério do Meio Ambiente foram alvos de operação da PF. Despacho de Salles permitiu a regularização de mais de 8 mil cargas de madeiras exportadas ilegalmente entre 2019 e 2020.


Por sua vez, o tráfico de produtos florestais, principalmente madeira, tem servido de maquiagem para o tráfico de drogas do Brasil para a Europa. Foram identificadas “16 grandes apreensões de cocaína em cargas de madeira destinadas à exportação por via marítima entre 2017 e 2021. Ao todo, as apreensões somaram cerca de 9 toneladas da droga e tinham como destino países europeus”.

Além de traficantes e garimpeiros ilegais, outros que defendem a aprovação do “marco temporal” são os integrantes do agronegócio, grandes proprietários de terras que tẽm devastado o meio ambiente para plantar soja, fazer pastagens e criar gado.

Segundo a ONG Socioambiental “Hoje, 13,8% do território brasileiro é ocupado por terras indígenas, considerando os procedimentos demarcatórios já abertos e dados do DOU. Parece muito, mas a média mundial é maior: 15%...As áreas privadas somam três vezes mais ou 41% do Brasil, segundo o IBGE. Cerca 22% do território nacional é ocupado com pastagem - mas metade disso com algum grau de degradação - e 8% com agricultura, conforme o projeto MapBiomas”.


E para quem acha que o agro é pop, há uma investigação mostrando que parte dos lucros da cocaína são lavados no agronegócio e com elos na política.


Se o “marco temporal” for barrado, poderá reduzir os eventuais danos causados pelo “PL da Grilagem” (Projeto de Lei 2633/20) e que regulariza a ocupação indevida de terras públicas e facilita o desmatamento ambiental.

Em 1981, o escritor Ignácio de Loyola Brandão publicou o romance “Não Verás País Nenhum”. Hoje mais um capítulo dessa história está sendo escrito em Brasília.

Links consultados:

https://apublica.org/2020/05/com-bolsonaro-fazendas-foram-certificadas-de-maneira-irregular-em-terras-indigenas-na-amazonia/?




29 outubro, 2020

E a terra, que não é plana, vai voltar a tremer

Auto de fé em Portugal (gravura)

 


 

 




Artigo também publicado no portal O Povo Online/Blog do Eliomar em 30/10/2020

“Depois do terremoto que havia destruído três quartos de Lisboa, os sábios do país não tinham encontrado um meio mais eficaz para prevenir uma ruína total senão dar ao povo um belo auto de fé; fora decidido pela universidade de Coimbra que o espetáculo de algumas pessoas queimadas em fogo brando, em grande cerimônia, é um segredo infalível para impedir a terra de tremer.


Tinha-se, em consequência, prendido um biscainho convencido de ter desposado a sua comadre, e dois portugueses que, comendo frango, tinham-lhe retirado o toucinho; vieram prender depois do jantar o dr. Pangloss e o seu discípulo Cândido, um por ter falado e o outro por ter escutado com ar de aprovação...Cândido foi surrado em cadência, enquanto se cantava; o biscainho e os dois homens que não quiseram comer toucinho foram queimados, e Pangloss foi enforcado, embora não fosse o costume. No mesmo dia a terra tremeu com um estrépito espantoso.”


O trecho acima do conto de Voltaire, “Cândido ou o otimismo” é uma das melhores analogias que se pode encontrar para a reforma administrativa, enviada ao Congresso pelo presidente de extrema direita, Jair Bolsonaro.


Ele anunciou a reforma no mesmo dia em que a economia tremeu com o anúncio da queda de 9,7 do PIB no segundo trimestre desde ano. Um auto de fé para acalmar o deus mercado, essa entidade onipotente e incorpórea que governa os rumos da economia e da política e à qual Bolsonaro, Paulo Guedes e outros prestam vassalagem.


A reforma, que irá ao Congresso em fatias,  pretende acabar com  a estabilidade do servidor público, prorrogar estágio probatório, acabar com a promoções e progressões por tempo de serviço, reduzir concursos, salários e carreiras e até juntar órgãos públicos e empresas privadas no mesmo espaço, com as empresas se beneficiando do que é público. No entanto, a reforma não afeta militares, juízes, parlamentares e nem membros do Ministério Público. Alguns juízes e membros do Ministério Público conseguem ter rendimentos de mais de R$ 100 mil por mês. Já no caso dos militares, o Ministério da Defesa tem a segunda maior folha de pagamento entre todos os ministérios, inclusive o da Educação. E para fazer o que mesmo? Enquanto isso, a grande maioria dos funcionários públicos brasileiros ganha pouco e mal. No caso dos servidores das prefeituras, de cada 100 funcionários, 61  recebem mensalmente entre um salário mínimo e dois salários e meio.


O governo diz e a mídia repercute cegamente que o país não tem dinheiro para pagar os servidores. Mentira. Quase metade do orçamento da União é consumido com juros e amortizações da dívida pública. Uma dívida que ninguém sabe quem fez e que nenhum governante quer auditar. A dívida é impagável. 


Recentemente Bolsonaro tentou, via decreto, começar a privatização do SUS a partir dos postos de saúde. Apanhou e recuou. Daqui há pouco tenta de novo.


O Brasil está assistindo a volta da fome, da queda em todos os indicadores sociais, a destruição ecocida do meio ambiente e um verdadeiro genocídio com mais de 156 mil mortos vítimas da Covid-19. Boa parte dessas mortes poderia ser evitada se o presidente e seus ministros agissem com o mínimo de responsabilidade.


O auto de fé da reforma administrativa visa acabar com o que resta da função social do Estado e levar milhões à fome, doença e a morte para garantir por mais alguns anos os lucros de um punhados de banqueiros e especuladores parasitas. Não vai dar certo.


E a terra, que não é plana, vai voltar a tremer.



Links com fontes: 

https://economia.uol.com.br/noticias/deutsche-welle/2020/09/03/servidor-ganha-demais-na-verdade-funcionalismo-e-desigual-como-o-brasil.htm

https://auditoriacidada.org.br/conteudo/grafico-do-orcamento-federal-2019-2/

https://auditoriacidada.org.br/conteudo/faixa-livre-fattorelli-pec-32-e-a-destruicao-do-estado-social-da-constituicao-de-88/



11 janeiro, 2019

O zé povinho e a dança das armas

No bairro Barroso II, ruas completamente às
escuras,  com lâmpadas quebradas


Publicado  aqui e no site Segunda Opinião, em 11/01/19 e no Blog do Eliomar/Portal O Povo, dia 13/01/19

Na gíria do crime, as pessoas comuns, que não são do meio e nem ligadas ao aparelho repressivo do Estado, são conhecidas como “zé povinho”. E somos nós, os“zé povinho”, os que mais têm sofrido com o inferno dos ataques criminosos no Ceará.

As facções foram chamadas para o enfrentamento aberto através das declarações e ações do secretário de Administração Penitenciária do Estado (SAP), Luís Mauro Albuquerque no dia 2 de janeiro. Desde então a rotina tem sido alterada por fogo, bombas e medo.

Os criminosos, que iniciaram seus ataques contra alvos tradicionais como ônibus, bancos e delegacias, passaram ao longo destes dez dias de inferno a fazer ataques indiscriminados e que não repercutem junto ao Estado e nem ao status quo, que são em boa parte responsáveis pela situação caótica em que estamos.

Queimaram o ‘Carro dos Churros”, no bairro Granja Lisboa, no Grande Bom Jardim.

Atearam fogo em um carro de uma auto escola, no Jangurussu, e o instrutor ficou com queimaduras graves.

Incendiaram o caminhão que puxava o “trenzinho da alegria”, em Maracanaú.

Tocaram fogo em uma van de transporte escolar, no Mondubim.

Depredaram uma creche mantida por uma igreja evangélica, na Sapiranga.

Como vão sobreviver estas famílias e outras que tiveram seu ganha pão transformado em cinzas?

Mas os danos não são somente patrimoniais e físicos. São psicológicos. São direitos essenciais negados, como o direito de ir e vir e de ter fornecimento de água e luz.

Tenho um amigo que ao falar sobre os ataques ou qualquer coisa relacionada aos mesmos, tem de cochichar no telefone, pois é vizinho de porta de um olheiro de facção.

Outra, não dorme mais à noite com medo que invadam o condomínio simples em que mora na periferia e a queimem viva com seus dez gatos (já houve ameaças).

Uma terceira, que se sentia relativamente segura por fazer trabalho assistencial com filhos de criminosos, agora está em pânico pois quebraram todas as lampadas do seu bairro e os faccionários mandaram os trabalhadores pararem uma obra ao lado de sua casa, sob pena de levarem bala.

O transporte coletivo, que é serviço essencial e em grande parte integrado pela frota de ônibus, tem causado imensos problemas a usuários. O Sindiônibus manda recolher os veículos a qualquer hora, deixando a população na rua e a mercê dos bandidos. Pela manhã, muita gente chega atrasada ao trabalho e leva bronca sem ter culpa. Quando chega o fim da tarde não sabe se consegue ônibus para retornar para casa e no dia seguinte começa tudo de novo. Uma senhora cadeirante, de 44 anos, esperou um coletivo por mais de uma hora à noite no terminal do Conjunto Ceará. Ao não conseguir embarcar, ligou para o marido que veio buscá-la e voltou para o Bom Jardim empurrando sua cadeira de rodas, por ruas escuras e em um percurso que demora aproximadamente duas horas.

Em Taquara, município de Caucaia, desde o dia 8 que criminosos cortaram a fiação dos postes e as residências encontram-se sem energia elétrica. Ligações seguidas para a Enel, empresa responsável pela manutenção elétrica e que assumiu serviços após privatização do setor, se mostram inúteis. Situação se repete em outros locais de Fortaleza e Região Metropolitana. Tanto a Enel como o Sindiônibus alegam insegurança para a suspensão no fornecimento de serviços. O lixo também não foi recolhido em vários bairros.

Por toda a periferia, comércios são obrigados a fechar e o toque de recolher é imposto.

Servidores municipais trabalham com medo em postos de saúde e hospitais e a Prefeitura de Fortaleza está sendo cobrada a garantir efetivamente a segurança dos mesmos, coisa que ainda não fez.

Antes dos atuais ataques criminosos, as chacinas, a expulsão de famílias de suas casa, os assassinatos, a tortura e a crueldade se transformaram em rotina na periferia de Fortaleza e em cidades do interior.

E as facções não chegaram a essa posição de domínio sem a cumplicidade do Estado. Desde os desembargadores que venderam liminares para soltar traficantes e que foram “apenados” com aposentadoria compulsória, passando por policiais, agentes penitenciários e outros, a banda podre do Estado tem sua parcela de culpa e esta não é pequena.

O governador Camilo Santana, que hoje culpa presidentes da República por não terem dado atenção ao problema de segurança, agiu da mesma forma e praticou por um bom tempo a política da avestruz na área.

A barbárie mora ao lado e cada vez mais mostra sua cara. Não se sabe até quando os ataques continuarão. Mas para o “zé povinho”, já deu e sobrou.

Não tenho dúvidas que somente com aumento da repressão e política de encarceramento em massa a questão da criminalidade não será solucionada.

O problema da violência só se resolve com mudanças nas relações sociais, tão estruturadas pela cobiça, pelo capital e pelo poder. Nesse contexto, facilitar a posse de armas para os mais privilegiados nada mais é que ampliar a guerra contra os mais pobres, ou bem dizer, os "zé povinho". Em um estado e em uma cidade marcados pela gritante desigualdade social, fazer dancinha simulando apontar armas, assim como fazem os endinheirados, é um prenuncio da barbárie que se avizinha.

03 janeiro, 2019

Ceará pode virar novo laboratório para intervenção militar

Coluna de viaduto na BR 020, após explosão de bomba no local.
Viaduto segue interditado.
Fortaleza, 3 de janeiro de 2019

Circulam na cidade de Fortaleza e em grupos do WhatsApp, três salves (informes) assinados pelo “crime organizado” e datados de 23 e 28/12/18, e de 03/01/19.

Nos dois primeiros, o chamado “crime organizado” pede para uma trégua temporária na disputa entre facções e a união para enfrentar o problema da repressão que deve se aprofundar no sistema prisional, citando especificamente o governador Camilo Santana (PT) como responsável por “trazer problemas”.

Há ameaças de parar o estado explodindo viadutos, pontes, trilhos de trem e metrô, caso sejam atacados. Acirramento.

Durante sua posse, dia 2, o titular da Secretaria de Administração Penitenciária do Estado (SAP), Luís Mauro Albuquerque, fez questão de afirmar que "Eu não reconheço facção. O Estado não deve reconhecer facção. A lei não reconhece facção”. Acrescentando ainda que “Quem manda é o Estado". Em seguida sinalizou que mudará o modo como o Governo do Estado lida com a divisão de detentos nas unidades prisionais do Ceará, colocando doravante detentos de diferentes facções no mesmo presídio. Com isso, o secretário acendeu o barril de pólvora.

Durante a noite do dia 2 e o dia 3, que ainda não terminou, Fortaleza e a Região Metropolitana estão vivendo horas de terror. Bomba em viaduto; ônibus, casas, veículos públicos, fotossensores e van incendiados; agência bancária metralhada; princípio de rebelião em presídio e população em pânico.

Por volta do meio dia, a Empresa de Transporte Urbano de Fortaleza (Etufor), sem dúvida seguindo diretriz do Sindicato das Empresas de Ônibus (Sindiônibus), anunciou que a frota de coletivos de Fortaleza e RMF seria reduzida, o que é um eufemismo para dizer que os ônibus vão praticamente parar de circular.

Procurado pela imprensa na manhã do dia 3, o secretário que fez bravata dizendo que não reconhece facção, preferiu calar e aguardar.

Ainda nesta manhã, general Theophilo, que disputou o Governo do Ceará com Camilo Santana e tinha como plataforma principal a Segurança Pública, ofereceu ao governador ajuda através de intervenção federal. O general foi recém empossado por Bolsonaro na Secretaria Nacional da Segurança Pública, tendo saído antes do PSDB, partido pelo qual foi candidato.

À tarde, Camilo Santana pediu ajuda ao ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro. Camilo pleiteou o auxílio da Força Nacional de Segurança, do Exército e da Força de Intervenção Integrada (FIPI), da qual o secretário Luís Mauro foi coordenador, agindo inclusive durante motins em presídios cearenses em 2016.

De imediato, o general Theophilo “informou que o Governo Federal já esperava ações de facções criminosas em represália à posse de Jair Bolsonaro (PSL)”. Isso parece um tremendo oportunismo político. Em nenhum dos salves que vi se faz qualquer menção a Bolsonaro ou a seu governo.

No terceiro salve, com data do dia 3, os criminosos pedem a demissão do titular da Secretaria de Administração Penitenciária do Estado (SAP), Luís Mauro Albuquerque e ameaçam parar o estado atacando também bancos, delegacias e Correios se isto não ocorrer.

O general também declarou que "Não vamos negociar com criminosos, vamos partir para o confronto".

Quem ganha com isso? Embora tenha sido duramente criticada pelo general durante a campanha eleitoral para governador do Ceará, a política de Segurança Pública de Camilo Santana é muito similar ao que prega Bolsonaro. E tem sido um completo fiasco, deixando o estado afogado em sangue (só em 2018 foram mais de 4500 assassinatos). O governo fracassou também no enfrentamento às facções, inclusive quanto estas foram abertamente para o confronto nas ruas.

Enquanto escrevo este artigo, no final da tarde, recebo relatos de vários pessoas que não estão conseguindo pegar ônibus para voltar para casa e nem sabem como vão trabalhar amanhã. Em vários bairros de Fortaleza e da RMF, os ônibus pararam de circular às 14h. Agora há pouco recebi informação de um sequestro contra funcionários de uma escola municipal no bairro Canindezinho, em Fortaleza.

Já existem pessoas feridas em decorrência das ações criminosas e o clima de temor é geral. Por enquanto a polícia prendeu 12 pessoas, supostamente envolvidas nas ações, o que é quase nada, considerando o número de faccionários existentes hoje no estado.

Enquanto o governador, o secretário, o general e o ministro fazem política e ameaçam transformar o Ceará em um novo laboratório para intervenção militar, como ocorreu no Rio de Janeiro,  e os criminosos continuam tocando o terror, a única certeza que temos é que mais uma vez quem mais vai sofrer é a população pobre, que depende do transporte urbano para se locomover, que é vítima da violência (inclusive policial) na periferia e em nome da qual todos falam, mas poucos se importam de fato com o que acontece a estas pessoas.


24 dezembro, 2018

Feliz o quê?

Texto também publicado dia 25/12/18 no Blog do Eliomar

Ontem um amigo jornalista me enviou uma mensagem via WhatsApp com um “Feliz” seguindo de um emoji de uma árvore de natal. Achei a iniciativa singela e plagiei descaradamente.


Hoje cedo, enviei a mesma mensagem a pessoas próximas. Uma delas, um professor, me respondeu com “E o restante do ano? E os 365 dias seguintes? E os anos perdidos? E as perspectivas dos anos que virão com esse sistema esmagando os(as) trabalhadores(as) de todo o mundo e dilapidando a Natureza?”.


Argumentei que a gente teria muitos dias à nossa frente para lutar e que um dia de trégua não mata ninguém né? Ele respondeu que “Não poderia ser outro dia? Por exemplo, o Dia de Finados pra gente lembrar do barbudo alemão? Natal é o dia mundial da hipocrisia mercantilizada.”

Faço essa pequena crônica pensando no seguinte: no ano que termina, nós que somos contra o sistema e a hipocrisia mercantilizada, não conseguimos fazer valer nossas narrativas, basicamente porque não houve diálogo. Houve sim um festival de fraudes, mentiras e brutalidade que começou antes da eleição e continua depois dela. E se não modularmos nosso discurso e encontramos alternativas para dialogar, será ainda mais difícil enfrentar esses 365 dias bicudos sob um governo claramente fascista que elegeu como alvos prioritários educadores, jornalistas, ativistas de esquerda, trabalhadores e pobres.


Ano passado, conversando com outro jornalista no Twitter sobre o texto “Natal usurpado”, lá pelas tantas ele pediu “Apascente seu coração neste Natal, @Haroldob, leia as entrelinhas e frua da beleza do texto de Carlo Tursi.”


Não apascentei meu coração. Continuo achando, como meu amigo professor, que o natal é uma festa comercial, impulsionada pela Igreja Católica que canibalizou uma série de tradições de outros povos e que há muita hipocrisia.


Mas também acho que não há mal nenhum em desejar feliz natal (até a estranhos) e aproveitar este momento para uma pausa merecida, para confraternizar, fortalecer nossos laços de amizade e refletir sobre as contradições do mundo em que vivemos e do que teremos de enfrentar. Como disse o poeta Sérgio Vaz “Abra os braços. Segure na mão de quem está na frente e puxe a mão de quem estiver atrás”. Feliz natal!

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