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28 setembro, 2022

NO DOMINGO, ELES PASSARÃO. NÓS PASSARINHO.

 


Artigo publicado em 28/09/22. Também no Portal O Povo

Não podemos dar chance ao genocida, que ocupa o cargo de presidente, a ter mais um mês de campanha,  arrastando para um segundo turno a eleição


Domingo eu vou votar. E vou votar com a certeza de que não estamos vivendo uma eleição normal. 

Como escreveu Conrado Hübner,  professor da USP, em artigo intitulado  É voto de sobrevivência, não é voto útil:  “A eleição presidencial de 2022 converteu-se numa eleição existencial. Se quiser provas, percorra as páginas do jornal de hoje, de ontem, de amanhã. Não se compara com qualquer eleição entre 1994 e 2014. Nem mesmo à eleição de 2018. Por nenhum critério relevante. Somente a indiferença ou a cegueira à espiral da violência política, do armamento militante de grupo atiçado por filosofia política da supressão do mais fraco, levam a conclusão diferente.”

É uma eleição para começar a pôr fim à essa distopia presente na qual o Brasil se enfiou.

Um exemplo: temos 33 milhões de pessoas que não têm o que comer no país. Regredimos 30 anos em quatro. Para quem pode se alimentar, isso parece só um número. Não é. Essa fome não é a que você sente entre o almoço e o jantar. Sei porque já passei.

Não podemos dar chance ao genocida, que ocupa o cargo de presidente, a ter mais um mês de campanha,  arrastando para um segundo turno a eleição e facilitando uma  tentativa de golpe, aprofundando esse clima de ódio com agressões, assassinatos, mentiras e medo.

Bolsonaro se alimenta de ódio e confusão. Citando novamente Hubner “um segundo turno é a colher de chá que deseja: o prêmio de quatro semanas em que pode disparar, sem afetar interesses eleitorais de aliados, seu arsenal atômico”.  A eleição para presidente precisa ser resolvida em 1º turno, neste domingo.

Não há terceira via na luta contra o fascismo. Esse discurso de “despolarização” de Simone Tebet e, principalmente Ciro Gomes, podem dar a Bolsonaro o que ele quer. Até Xuxa e Angélica Huck, que já declararam voto em Lula, apresentam mais lucidez e compromisso.

Daqui até o dia 2, converse com parentes, amigos, colegas e até desconhecidos. Pergunte(se) o que melhorou na vida desde que esse elemento foi eleito. Vire votos.
E no domingo, vote contra o genocídio, o ecocídio, a fome, o fascismo e a corrupção. Lembre dos quase 700 mil mortos por covid e que muitos deles poderiam estar vivos. Lembre-se de Moa do Katendê, Marcelo Arruda, Antônio Carlos Silva e tantas outras vítimas. Vote contra a morte. Vote pela vida, pela paz e pela democracia. Citando o poeta Mário Quintana, e com a devida licença poética, quanto a esses que atravancam o nosso caminho,  “eles passarão/nós passarinho”.  Vote 13,  vote Lula!

E se for eleitor do Ceará, ouça o recado da governadora Izolda Cela: "Nem capitão cá, nem capitão lá."

01 abril, 2021

Uma carga da cavalaria do sarcasmo



Neste 1º de abril de 2021, Dia da Mentira e aniversário do golpe militar-civil de 1964, aproveito para publicar posfácio que fiz para o Dicionário Involucionário, do Felipe Franklin Neto. O livro foi publicado em 2019, mas continua bem atual. Segue o texto e #ForaBolsonaroGenocida



2013: milhões nas ruas do Brasil. Milhares nas ruas de Fortaleza. Os manifestantes não sabiam ao certo o que queriam (não era por vinte centavos), mas o que não queriam sim. O catalisador foi a Copa das Confederações.

Os protestos tiraram o sono da elite, dos políticos, dos especuladores, dos que se acham donos do Brasil. E eles entenderam o recado e o risco que as ruas representavam.

Nas manifestações com pauta difusa, já existia o germe desse protofascismo que vivemos em 2019. Brancos enrolados em bandeiras verde e amarelo manifestando sua tara por fardas e entregando os pivetes pretos da periferia aos policiais (infiltrados ou não). Carreiristas descarados usando grupos do Facebook para mentir, canalizar a revolta e fazer sua cavaçãozinha (O WhatsApp ainda não existia). A grande mídia criminalizando protestos e sendo porta-voz dos cidadãos de bem. E os velhos bandidos de sempre fabricando a ilusão da nova política.

Os governos, de esquerda e de direita, mandaram descer o cacete. Tiro, porrada e bomba, como fizeram antes e como fazem até hoje.

Mas nesse Brasil de 2013 também estava a semente do que poderia ter sido e ainda pode. Do enfrentamento ao status quo, do acampamento no parque do Cocó em Fortaleza, das manifestações no Makro, em frente ao Palácio da Abolição, na Serrinha. Um movimento pra negar a barbárie e quebrar a lógica do fim do mundo para onde o capitalismo nos encaminha.

E foi nesse clima que o Dicionário Involucionário saiu. Sociologia poética. Léxico fora da ordem.

Hoje, para compreender a involução que estamos vivendo, é fundamental revisitar, ainda mais de forma divertida e prazerosa, aqueles dias (e noites). (Re)ler os verbetes escritos no calor da hora. Literatura, arte, contestação, filosofia, rebeldia. Escrita automática, sarcástica e humana.

Debord escreveu o Sociedade do Espetáculo com com 221 aforismos. O Dicionário tem 188 verbetes. Em comum a denúncia do espetáculo e sua cacofonia que vai nos engolindo, cegando, embrutecendo, sufocando. “O espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas, mediatizada por imagens”.

Para romper com essa lógica, todas as armas são boas: pedras, noites, poemas… E dicionários. (Paráfrase do Leminski).

Então, mais uma arma para ajudar a enfrentar as milícias (virtuais ou não), o exército de robôs e de imbecis robotizados que odeiam a história, a filosofia, a arte, o pensamento. Que perseguem professores, sindicalistas, artistas, jornalistas e qualquer um(a) que não se submeta ao seu circo de horrores e bobagens perversas.

A jornalista Eliane Brum escreveu que “Os perversos corromperam a palavra ... Só por isso podem dizer que o Brasil está ameaçado pelo ‘comunismo’ ou que o nazismo é de 'esquerda’ ou que o aquecimento global é um 'complô marxista’...Precisamos voltar a encarnar as palavras. Ou enlouqueceremos todos. A criação do comum começa pela linguagem”. O Dicionário Involucionário sai novamente então em um momento apropriado.

Mayakovski escreveu que a cavalaria do sarcasmo era sua arma predileta. Ela continua temível. Faça bom uso.

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