19 outubro, 2016

“Pacificação” imposta em Fortaleza pelo crime organizado pode estar chegando ao fim

Embora a Segurança Pública seja um dos principais temas da campanha eleitoral em Fortaleza e ambas as chapas que estão no 2º turno tenham integrantes ligados á área, um dos aspectos mais relevantes neste quesito que é a “pacificação” dos bairros e comunidades por facções do crime organizado, recebeu um solene silêncio nos programas eleitorais e discursos dos candidatos.
Desde o primeiro semestre deste ano que o Primeiro Comando da Capital (PCC), o Comando Vermelho (CV) e o Guardiões do Estado (GDE) impuseram a “pacificação” em bairros e comunidades da periferia da capital cearense, fazendo despencar o número de homicídios e de pequenos crimes como o furto de celulares e bolsas. As facções fizeram o que o Estado não conseguiu.
Matéria do repórter Gil Alessi, publicada no jornal El País, em agosto deste ano, explica os motivos para a ação: “A ideia é reproduzir o modelo empresarial adotado pelo PCC em São Paulo, deixando antigas desavenças de lado e focando no comércio da droga e no enfrentamento à polícia. A lógica é simples: homicídios chamam a atenção das autoridades, e roubos geram mal-estar na comunidade, incentivando que os moradores delatem os traficantes que não conseguem 'manter a ordem' ".
Em sua campanha para a Prefeitura de Fortaleza, o prefeito Roberto Cláudio (PDT) afirma que a paz na periferia é fruto da iluminação pública e da urbanização de praças. A meu ver isto até ajuda, mas a causa central é outra.
O recado vem pelo muro: “Se roubar na favela, vai morre” (sic). Apesar do erro na grafia, o significado é claro e está em letras garrafais em um dos muros no bairro Parque Presidente Vargas. Quem assina é GDE 745 (referência à posição das letras no alfabeto).
No Aracapé, a aproximadamente quinhentos metros da Areninha recém inaugurada pela Prefeitura, a assinatura da mesma frase nas paredes é do Comando Vermelho (CV). Ainda no local, outra pichação diz para “acabar com os PM passa fome” (sic).
Recados semelhantes se espalham pelos bairros próximos como Conjunto Esperança, Mondubim, Parque Santa Rosa etc.
Do outro lado da cidade, no Quintino Cunha, a letra é do PCC: “Não use drogas na frente das crianças”. Da mesma forma que o GDE assina 745, o PCC também assina com 1533.
Desde o primeiro semestre deste ano, quando as facções criminosas selaram o acordo de paz em Fortaleza, que a vida segue bem mais tranquila nos bairros periféricos.
Em lugares tão distantes como o Pirambu ou o Jangurussu, os moradores podem sair com mais tranquilidade e levar seus pertences, como smartphones e bicicletas, inclusive à noite.
No Pirambu, podem até aproveitar o calçadão do Projeto Vila do Mar para passeios e lazer. Jovens se deslocam inclusive de outros lugares da cidade e curtem festas no fim de semana no calçadão, antes deserto e perigoso.
Mas como a lógica que rege os “partidos do crime” parece ser a mesma que rege os partidos tradicionais, esta “paz” está em risco. Duas rebeliões ocorridas nos presídios de Roraima e Rondônia no último domingo, 16/10, podem significar, na prática, o fim do acordo de paz entre o PCC e o CV. Em Roraima, pelo menos 10 presos integrantes do Comando Vermelho foram trucidados, alguns decapitados e queimados por integrantes do PCC que invadiram suas celas. Já na capital de Rondônia, houve oito presos mortos, também na disputa entre as duas facções. Em São Paulo, conforme fonte ligada ao Ministério Público, desde o dia 18 que o PCC faz levantamento de quantos presos ligados ao Comando Vermelho existem no estado. No Rio, local de origem do CV, presos do PCC estão pedindo transferência para outros presídios que não são controlados pelo outro grupo.
Como o Comando Vermelho e o PCC são organizações nacionais, a disputa pode se transformar em uma verdadeira guerra dentro e fora dos presídios. O que estaria por trás do rompimento entre os dois grupos seria um realinhamento nas alianças com outras facções criminosas como a Família do Norte (FDN) e mudanças no controle das rotas de tráfico de armas e de drogas.
Sejam quais forem as causas do rompimento, conforme declarou ao jornal El País o professor do departamento de Ciências Sociais da UFC e pesquisador do Laboratório de Estudos da Violência, Luiz Fábio Paiva, “O momento é de tensão e expectativa em termos da repercussão da quebra dessa aliança”.
Já circula na internet um vídeo que supostamente mostra integrantes do PCC jogando futebol com a cabeça de um membro do CV, após degolá-lo, em um dos presídios de Itaitinga, na Região Metropolitana de Fortaleza.
Em artigo que escrevi em maio deste ano, intitulado “Basta de política de avestruz na segurança pública”, procurei mostrar como as medidas adotadas pelo Governo do Ceará para lidar com as ações das facções e com a violência eram, no mínimo, canhestras. Desde então se algo mudou foi para pior. Basta ver o clima nas delegacias e quartéis.
É bom lembrar que no primeiro semestre deste ano, viaturas e órgãos de segurança foram metralhados, torres de telefonia e ônibus queimados, carro bomba com 10 quilos de dinamite deixado ao lado da Assembleia Legislativa do Ceará, Câmara Municipal de Sobral atacada com bombas incendiárias, rebeliões com mortes nos presídios e por aí vai.
Se o confronto explodir, não será somente a periferia a sofrer.

Álbum de fotos: https://goo.gl/photos/YFh8csuLTAZLDxRFA

Links consultados:
Basta da política de avestruz na segurança pública -
http://blog.opovo.com.br/blogdoeliomar/seguranca-publica-e-a-politica-de-avestruz/

Acordo pela paz entre PCC e Comando Vermelho derruba homicídios em Fortaleza - http://brasil.elpais.com/brasil/2016/08/19/politica/1471617200_201985.html

Rebeliões sinalizam fim de pacto entre PCC e CV e espalham tensão em presídios - http://brasil.elpais.com/brasil/2016/10/17/politica/1476734977_178370.html

Guerra no crime: PCC começou hoje a rastrear os membros do CV em São Paulo - http://ponte.org/guerra-no-crime-pcc-comecou-hoje-a-rastrear-os-membros-do-cv-em-sao-paulo/

Preso foi decapitado em guerra de facções no Ceará - http://veja.abril.com.br/brasil/preso-foi-decapitado-em-guerra-de-faccoes-no-ceara/

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