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14 março, 2020

Bandeira de aço - Diários de São Luís (parte II)

Dois anos atrás, passei férias em São Luís do Maranhão. Prometi a alguns amigos(as) e a mim próprio escrever sobre. Mesmo tardiamente, segue: um misto de crônica, diário de bordo e roteiro turístico não ortodoxo. Para quem não viu, AQUI a primeira parte



Os Bois - uma das melhores formas de conhecer uma cidade, uma região, é pela música local. De preferência aquela exposta e à mostra no meio da rua, nas praças. São Luís tem uma cultura muito forte, com destaque para o reggae e, óbvio, para o Bumba-meu-boi.



Na Praça Deodoro você encontra uma profusão de camelôs, muitos deles com uma caixa de som, um notebook e vários discos de boi no HD. Eles passam de forma mágica para seu pendrive por dois, três ou cinco contos. Boi da Maioba, Boi de Axixá, Boi de Santa Fé e o famoso Boi de Maracanã (Batalhão de Ouro). Os bois têm sotaques (estilos), que se definem pelas formas, vestimentas, instrumentos: orquestra, baixada, costa de mão, matraca... Do que mais gostei foi do boi de matraca. O Bumba-boi, como o carimbó, o samba e a capoeira,  já foi perseguido por ser coisa de preto, de mestiço, da ralé. Hoje é patrimônio cultural imaterial da humanidade.




Vi no Centro Histórico, na calçada do Bar da Faustina (aquele abraço seu Luís), o Boi de Santa Fé. Ritmo contagiante e uma moça com uma fantasia de caboclo de pena que, apesar do nome, pesa  imensamente. Ela dançou por horas. À meia-noite, ao descerem do palco, seguem tocando até os ônibus e caminhões abertos e vão para o bairro de origem. Mais uma dose de tiquira e teria ido junto.


Já na Praça Maria Aragão, após uma apresentação de Nando Cordel, vi o inesquecível Batalhão de Maracanã. O chão tremeu. Se você ainda conhece e não ouviu esses bois e caras como Coxinho, Humberto de Maracanã, Mestre Zé Olhinho e outros, corrija essa lacuna o quanto antes.



Um adendo: na minha imensa ignorância, não conhecia o disco Bandeira de Aço. Depois da passagem pela Praça Deodoro, o Bandeira quase não saiu mais dos fones de ouvido durante a estadia em São Luís. De início, achei que as composições eram de Papete (que interpreta), Não são. Fiquei vidrado em letras enigmáticas de músicas como “Bandeira de Aço” e “Flor do Mal”. Me inculcou demais um verso: “Eu e minha bananeira, duas bandeiras do mal”. Pois, por obra e graça do amigo Ricarte, nesse dia na Praça Maria Aragão, fui apresentado ao César Teixeira, compositor de ambas. Não tive dúvidas e perguntei sobre o verso. A explicação começou com “você já reparou que bananeira tem cheiro de sexo de mulher?”. Fiquei de cara. Estou até hoje. César Teixeira, um dos grandes da música regional e universal. Acessível e paciente. Ao menos comigo nesse dia.


Dica: Se for a São Luís, procure ir em junho.quando os Bois se apresentam nas festas juninas. Como diz o Parahyba Kid Medeiros, a melhor brincadeira de boi não é vaquejada. É Bumba-meu-boi!



Casa das Minas - Era sábado. Como fui de ônibus, a dica foi descer no Socorrão e pegar a rua de São Pantaleão. Procurei algo chamativo e nada. Encontrei enfim um casarão de cor verde com uma discreta placa de azulejo. Decepção. Maioria dos janelas e portas fechadas. Até então eu tinha ideia que ia a um museu. Procurei e enfim encontrei uma porta com uma das bandeiras abertas. Não vi campainha. Bati palmas, chamei. Nada. Então, fui entrando. De uma espécie de corredor vinha saindo uma moça que perguntou: veio visitar? -Sim - Vá por ali. Segui até uma cozinha com varanda. No chão, um fogo de lenha com um caldeirão fervendo. Aparece uma senhora muito simpática e vai logo explicando: o que ferve na panela não é comida de obrigação, que hoje não é dia de. É só um mocotó para receber a filha e uns amigos. E como se me conhecesse há anos, vai contando a história da Casa das Minas, que é mais ou menos assim: “Fundada em meados do Século XIX, por uma mulher africana chamada Maria Jesuína, que veio ao Brasil como escrava e que, segundo Pierre Verger era na verdade a Rainha Nã Agontimé, Esposa do Rei Agonglô do Daomé e mãe do Rei Guezô. No documento mais antigo de que se tem notícia sobre a Casa das Minas, a escritura do prédio da esquina data de 1847, estando em nome de Maria Jesuína e suas companheiras, que, segundo relatos, eram africanas.”





Na Casa habitam divindades chamadas voduns, que são de cinco famílias. “A Casa das Minas (ou Querebentã de Zomadonu) possui uma tradição matriarcal, ou seja, só é governada por mulheres e somente mulheres podem incorporar os voduns (os homens só podem participar do culto tocando os instrumentos musicais litúrgicos).” Embora o culto dos voduns seja de origem Jeje, como as sacerdotisas (vodunsi) eram chamadas pretas minas, terminou sendo chamado também Tambor de Mina.





Hoje o culto está extinto, mas a senhora que me recebeu, dona Socorro, e seu marido, Euzébio, neto de Dona Amélia (uma das últimas vodunsis), levam as obrigações da Casa, que duram o ano todo.





Por exemplo, no Dia de São Pedro, segundo ela, vêm aproximadamente 25 Bois dançarem na Casa. - “Onde arrumar comida pra esse povo todo? O Estado não ajuda, embora a Casa esteja tombada pelo Iphan desde 2002”. Ela me informa ainda que antes (provavelmente no período da ditadura), quando os Bois eram proibidos de dançar na rua, vinham no São Pedro e dançavam, meio escondidos, no quintal. A Casa é um polo de resistência que atravessa aproximadamente dois séculos.



Há um espécie de acordo entre os voduns e as entidades/divindades de outros cultos de matriz africana e que não se manifestam na Casa. Não há estátuas ou imagens esculpidas, exceto os que estão em um altar, que são os da obrigação do momento. Afora isso, algumas fotos das vodunsis e familiares e cinco potes que ficam em um parapeito na cozinha. Um para cada família e sempre com água limpa e fresca. No quintal há uma árvore em um cercado, que também é espaço dos voduns. Além disso, os famosos tambores, que segundo dona Socorro, vieram de Daomé, hoje Benin. São estes tambores que dão nome ao romance de Josué Montello, “Os tambores de São Luís”. Não só vi os tambores como inclusive sentei no mesmo banco que o personagem central do romance, Damião, sentou.




Ninguém passa pela Casa das Minas e saí sem uma forte impressão, seja religioso, agnóstico ou ateu. E as palavras que me vêm são respeito, força, resistência. A sensação de um conhecimento e tradição que lá, de alguma forma, permanecem. Me senti acolhido.



Para não alongar demais, deixo para a terceira parte dos Diários, um pouco da história de Donana Jansen, reggae, tambor de crioula, a peregrinação por museus e igrejas e, com certeza, mais bares! Em compensação, ficam: a dica da leitura imperdível d’Os tambores de São Luís e a letra de uma toada fantástica do Humberto de Maracanã com louvação à Casa das Minas.

Sobre o romance histórico Os tambores de São Luís - “O escritor maranhense apresenta toda a saga do negro, desde a sua origem africana, sua viagem nos navios negreiros, até a chegada em nossa terra. 'Os tambores de São Luís', cuja narrativa transcorre durante uma noite e algumas horas da manhã seguinte, conta, em tom épico, uma história de três séculos de lutas e insurreições.”


Reis da Encantaria - Toada de Humberto de Maracanã

Salve os terreiros que o pai Oxalá mandou

Turquia, Casa das Minas e a Casa de Nagô

Viva Deus, viva as rainhas

E os reis da encantaria

Rei Badé, Rei Verequete

O rei da Alexandria

Rei Guajá, Rei Surrupira

Rei Dom Luís, Rei Dom João

Rei dos feiticeiros, dos exus e Rei Leão

Rei Oxossi, Rei Xangô

Rei Camundá, Rei Xapanã

Rei Barão, Rei de Guaré

Protejam o Boi do Maracanã

Rei da Bandeira, o rei da maresia

Rei de Itabaiana, salve o rei da Bahia

E os reis que eu não falei em verso, falo do meu coração

Salve o rei dos índios, salve o Rei Sebastião.

11 março, 2020

Diários de São Luís (parte I)



Dois anos atrás, passei férias em São Luís do Maranhão. Prometi a alguns amigos(as) e a mim próprio escrever sobre. Mesmo tardiamente, segue: um misto de crônica, diário de bordo e roteiro turístico não ortodoxo.


São Luís, em uma área de uns quatro por quatro quarteirões, deve ter mais prédios históricos (grande maioria em ruínas) do que em toda Fortaleza. Andar no Centro Histórico é um mergulho no tempo, envolvente e revoltante, Cada casarão é um tesouro, uma história, uma fábula. A maioria está tombada, sendo deixada para cair. O jardim da Casa da Música, por exemplo, é de arrepiar e fazer sonhar.


Enquanto isso, o Landau (do seu Sarney) e a Veraneio (da dona Marli, primeira dama) são tratados como deidades no Convento das Mercês, que começou a ser construído em 1654. A história do prédio é turbulenta. As más línguas dizem que, além de garagem nobre, poderá virar mausoléu do mandatário.


Em uma única tarde é possível ver a Feira da Praia Grande, descobrir figuras alambiquistas e lendárias como o Corinthiano e o Batista, chefs de cousine disfarçados de donos de boteco, como o Deco… Mas conhecê-los demora dias, meses, quiçá anos.


A Feira, como todo bom ludovicense chama, é um personagem em si. Um grande armazém de secos e molhados. Além disso serve comida, bebida, artesanato, diversão… E diferente de outros mercados que conheci, fica aberto durante parte da noite. Nas várias vezes que visitei, me pareceu haver um jogo perpétuo de dominó acontecendo em uma das portas e que o traçado interno mudava. Mas vai ver foi só efeito da Tiquira.



É na Feira que fica o Bar do Decos. Serve aquela omelete (ou fritada) de siri, peixe, camarão, pinga e cerveja boa e gelada. Tudo a preço justo, sem frescura. Prato feito de lamber os beiços.

Na Feira também fica o Bar do Corinthiano. Não passei lá uma única vez para não encontrar o balcão lotado, todo mundo rindo e bebendo em boa paz. Um alvoroço. As bebidas do maestro têm títulos auto-explicativos e prometedores: “Fogosinha”, “Fogozada”, “Gogozada” e “Fura Ferro”. Recomendo todas moderadamente e com a devida e prévia libação. Laroyê!

Já o mestre Batista, só encontra quem conhece. Seu estabelecimento fica pros lados do Convento das Mercês, em algum beco ou travessa. Creio ter visto mais de 100 variedades de cachaça (é uma verdadeira cachaçaria!). Pense em alguma folha, fruta ou raiz que possa ser misturada com destilado e você encontra. Cachaça de pitomba, cachaça de gengibre, cachaça de banana...Aí se perde a conta. Ele é muy cerimonioso. Na época em fui, acompanhado por um amigo jornalista que o conhece de há muito, nem foto permitiu. Melhor. Leva-se só á lembrança.


E do que vale muito a pena ser lembrado: o Cais da Sagração ou simplesmente Cais da Praia Grande ou mais simples ainda: Cais. Sua construção foi iniciada em 1841, mesmo ano em que a coroa subiu à cabeça de Pedro II. O Cais também é um personagem. Título de livro de Josué Montello (a ele voltaremos), figura sabe-se lá em quantas histórias, lendas, músicas. “Foi construída uma grande extensão de muralhas espessas, feitas em alvenaria de pedra e reboco, pintadas na cor branca, interrompidas por três rampas. Duas meias-luas também interrompem o sentido retilíneo da muralha, correspondentes aos Baluartes de São Cosme e Damião. Os muros possuem bancos embutidos. Em seu entorno, fica localizada a Avenida Beira-Mar, em trecho arborizado com coqueiros.”


Essa descrição não fala nada sobre como é fácil se apaixonar sentado na Praça em Frente ao Cais, vendo o pôr do sol e tomando água de coco ou café nos carrinhos de ambulantes. Às vezes é até mais fácil que pegar uma barca pra Alcântara. Não fala que o Cais fica cercado de museus, no fim da descida das ladeiras do Centro Histórico. Nem que acaba (acaba?) do lado terminal de ônibus, de onde se parte, de a pé e de cambão para conhecer São Luís do Maranhão. Mas tudo isso fica pra próxima crônica na qual prometemos bois de matraca, museus com guias que botam a perder, amores de Donana Jansen e uma visita à Casa das Minas.

17 janeiro, 2020

Câmara Municipal de Fortaleza não é 100% transparente com relação às faltas dos vereadores e nem ao desconto das mesmas

Foto: Banco de Imagens da CMFor



Em outubro de 2019, utilizei a Lei de Acesso à Informação para fazer pedido à Câmara Municipal de Fortaleza (CMFor) sobre faltas dos vereadores às sessões. Encaminhei inicialmente o pedido à assessoria de Imprensa da CMFor. Como não obtive resposta satisfatória, refiz o pedido via Portal da Transparência e reclamei na Ouvidoria.

Enviaram então um link que está no site do Sistema de Apoio ao Processo Legislativo, através do qual é possível pesquisar a presença dos vereadores nas sessões.

Ocorre que esta informação nem sempre é confiável e o link não tem o destaque devido.

Dia 16/01/2019, o jornal Diário do Nordeste publicou matéria da jornalista Luana Barbosa apontando os cinco vereadores com maior número de faltas em 2019. Conforme a primeira versão da matéria, o campeão em faltas seria o vereador Plácido Filho (PSDB), seguido da vereadora Priscila Costa (PRB). Posteriormente foi feita correção e os dados foram alterados.

No entanto, o número de faltas apresentado pela reportagem (antes e depois da correção) difere daquele que se pode deduzir ontem e hoje, 17/01/2020, no site da CMFor. Este site só registra as presenças e o número de sessões. No caso das sessões ordinárias, que foram 115 em 2019, ontem o vereador Plácido Filho (PSDB) aparecia com 46 presenças. Hoje, no momento em que escrevo esta matéria, este número subiu para 51 presenças. Com relação às faltas, justificadas ou não, estas não são registradas pelo site. Conforme o Regimento Interno da CMFor, são considerados motivos justos para a falta “a doença, o luto, motivos de festejos nacionais, o desempenho de missões oficiais da Câmara, além de outros estabelecidos com antecedência pelo Plenário”.

Segundo a Coordenadora Geral de Comunicação da Câmara, Renata Sampaio, o site ainda está sendo alimentado com os dados das sessões de dezembro/19. Ou seja, por enquanto a informação sobre o número de presenças dos vereadores não está correta e não há nenhum alerta sobre isso.

Outra questão central é: as faltas não justificadas pelos vereadores são descontadas de seus vencimentos? Se sim, em quais circunstâncias? Pesquisei no Regimento Interno e no Portal da Transparência da CMFor e não encontrei nenhuma explicação clara sobre isso. Em 2019, conforme o Portal da Transparência, a Câmara desembolsou R$ 88.197.417,34 com vencimentos e vantagens fixas - pessoal civil.


26 dezembro, 2019

Festas caras: Réveillon no Rio custou R$ 18 milhões e em Fortaleza R$ 9 milhões

Em Recife, o custou foi de R$ 1 milhão




Na virada do ano 2018/19, o Réveillon promovido pela Prefeitura do Rio de Janeiro custou R$ 18.337.425,00. Desse montante, R$ 13.338.425,00 saíram dos cofres municipais. O restante foi obtido através de patrocínios com o setor privado e um banco público.

A festa da virada do ano na capital carioca deve ter sido a mais cara do país. Mesmo a cidade estando em péssima situação financeira, o prefeito Marcelo Crivella (PRB) decidiu abrir o caixa. Em 2018, a cidade fechou suas contas com um rombo de R$ 3,3 bilhões, conforme dados do Tribunal de Contas do Município (TCM).

Provavelmente o segundo réveillon mais caro do país foi o de Fortaleza, com custo de R$ 9.454.960,40. Destes, R$ 7,6 milhões saíram dos cofres do Município e o resto veio através de patrocínio de uma cervejaria e do Governo Do Ceará, que contribuíram aproximadamente com um milhão de reais cada.

Chama a atenção o custo exagerado dos eventos nas duas capitais e o fato de que, mesmo com patrocínios, a maior parcela dos gastos fica por conta do bolso dos contribuintes.

Já em Recife, o réveillon custou R$ 1,18 milhão e não teve patrocinadores.

Em Fortaleza, o gasto com Réveillon foi equivalente a mais de 40% do orçamento da Secretaria de Cultura durante o ano


Um dos setores que mais lucram em Fortaleza e no Rio no período do final do ano é a rede hoteleira. Segundo dados da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis no Ceará (ABIH-CE), a taxa de ocupação durante o réveillon no ano passado foi de 93%. Para este ano há uma expectativa de aumento deste percentual para 95%. Já no Rio, no dia 25 de dezembro/19, a ocupação para o Réveillon chegava a 85%.

Mas se a rede hoteleira lucra, não se pode dizer o mesmo da cultura. Em Fortaleza, a despesa feita com o Réveillon não foi proporcional ao desembolso com a área cultural no restante do ano. Em 2018, o gasto total da Secretaria de Cultura de Fortaleza (Secultfor) foi de apenas R$ 21 milhões, embora a previsão da Lei Orçamentária Anual (LOA) tenha sido de quase R$ 53 milhões. O gasto na festa de Réveillon, realizada em uma única noite, foi o equivalente a 43% de todo o orçamento da Secretaria de Cultura durante o ano.

*Os dados desta matéria foram obtidos através da Lei de Acesso à Informação.

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