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01 abril, 2021

Uma carga da cavalaria do sarcasmo



Neste 1º de abril de 2021, Dia da Mentira e aniversário do golpe militar-civil de 1964, aproveito para publicar posfácio que fiz para o Dicionário Involucionário, do Felipe Franklin Neto. O livro foi publicado em 2019, mas continua bem atual. Segue o texto e #ForaBolsonaroGenocida



2013: milhões nas ruas do Brasil. Milhares nas ruas de Fortaleza. Os manifestantes não sabiam ao certo o que queriam (não era por vinte centavos), mas o que não queriam sim. O catalisador foi a Copa das Confederações.

Os protestos tiraram o sono da elite, dos políticos, dos especuladores, dos que se acham donos do Brasil. E eles entenderam o recado e o risco que as ruas representavam.

Nas manifestações com pauta difusa, já existia o germe desse protofascismo que vivemos em 2019. Brancos enrolados em bandeiras verde e amarelo manifestando sua tara por fardas e entregando os pivetes pretos da periferia aos policiais (infiltrados ou não). Carreiristas descarados usando grupos do Facebook para mentir, canalizar a revolta e fazer sua cavaçãozinha (O WhatsApp ainda não existia). A grande mídia criminalizando protestos e sendo porta-voz dos cidadãos de bem. E os velhos bandidos de sempre fabricando a ilusão da nova política.

Os governos, de esquerda e de direita, mandaram descer o cacete. Tiro, porrada e bomba, como fizeram antes e como fazem até hoje.

Mas nesse Brasil de 2013 também estava a semente do que poderia ter sido e ainda pode. Do enfrentamento ao status quo, do acampamento no parque do Cocó em Fortaleza, das manifestações no Makro, em frente ao Palácio da Abolição, na Serrinha. Um movimento pra negar a barbárie e quebrar a lógica do fim do mundo para onde o capitalismo nos encaminha.

E foi nesse clima que o Dicionário Involucionário saiu. Sociologia poética. Léxico fora da ordem.

Hoje, para compreender a involução que estamos vivendo, é fundamental revisitar, ainda mais de forma divertida e prazerosa, aqueles dias (e noites). (Re)ler os verbetes escritos no calor da hora. Literatura, arte, contestação, filosofia, rebeldia. Escrita automática, sarcástica e humana.

Debord escreveu o Sociedade do Espetáculo com com 221 aforismos. O Dicionário tem 188 verbetes. Em comum a denúncia do espetáculo e sua cacofonia que vai nos engolindo, cegando, embrutecendo, sufocando. “O espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas, mediatizada por imagens”.

Para romper com essa lógica, todas as armas são boas: pedras, noites, poemas… E dicionários. (Paráfrase do Leminski).

Então, mais uma arma para ajudar a enfrentar as milícias (virtuais ou não), o exército de robôs e de imbecis robotizados que odeiam a história, a filosofia, a arte, o pensamento. Que perseguem professores, sindicalistas, artistas, jornalistas e qualquer um(a) que não se submeta ao seu circo de horrores e bobagens perversas.

A jornalista Eliane Brum escreveu que “Os perversos corromperam a palavra ... Só por isso podem dizer que o Brasil está ameaçado pelo ‘comunismo’ ou que o nazismo é de 'esquerda’ ou que o aquecimento global é um 'complô marxista’...Precisamos voltar a encarnar as palavras. Ou enlouqueceremos todos. A criação do comum começa pela linguagem”. O Dicionário Involucionário sai novamente então em um momento apropriado.

Mayakovski escreveu que a cavalaria do sarcasmo era sua arma predileta. Ela continua temível. Faça bom uso.

12 fevereiro, 2021

Pelos bares da vida…

 

Placa na estrada de Ubajara com os dizeres "Bar Recanto Zé Maria dos Patos"


Preso em casa não só pela pandemia, mas pela irresponsabilidade criminosa de Bolsonaro e cupinchas, que deixaram a desgraceira chegar aonde chegou, começo a pensar nos bares da vida. Os de ontem e os de hoje. E resolvo fazer esta croniqueta, pessoal e intransferível, para relembrar alguns dos locais embriagadores por onde passei.


Como toda boa peregrinação etílica, esta segue ao léu e aos emboleos, sem ordem cronológica definida e nem hora certa pra acabar. Com certeza vou esquecer de muitos, aos quais prometo voltar para tomar mais uma(s).

E antes um aviso: sou fã incondicional dos botecos do tipo copo sujo e do tira gosto “comeu morreu”. Assim, minhas escusas prévias aos paladares refinados e sensibilidades delicadas.


Croa Grande - Barraca do Padim





Croa (abreviação de Coroa) Grande é um povoado cearense que fica às margens do Rio Acaraú. Da última vez que lá estive, o que deve ter mais ou menos uns 10 anos, a vila contava com uma população que não passava de 150 pessoas. É (ou era) um daqueles lugares onde se dorme com portas abertas, qualquer estranho é alvo da curiosidade dos locais e a vida ainda se pauta pelo ritmo da natureza.

Só tinha dois estabelecimentos comerciais: um bar e mercearia de um sujeito que não lembro o nome e a Barraca, de praia, do João Ivo (o Padim). Figura das mais divertidas e acolhedoras, mantinha uma rede de tucum armada na varanda da barraca e quem chegasse primeiro se aboletava.

Cachaça, cerveja, conhaque (Dreher e São João da Barra), tira gosto de sururu, caldo de siri, peixe frito etc. Tudo feito na hora. Uma parte na barraca, outra em sua casa, preparados por sua esposa, dona Maria, ou por ele mesmo. O mar e a gamboa, a poucos passos. Ótimo refrigério pra curar a ressaca ou matar o calor.

Fiquei amigo e já da segunda vez em que fui, eu mesmo anotava em um caderno minha conta. No final do dia, quem estivesse menos “de fogueira”, eu, ele, ou outro freguês, somava.



Ubajara - Bar Recanto Zé Maria dos Patos

Placa dizendo "Bar Recanto Zé Maria dos Patos"


Estava de férias em Ubajara (CE) e no dia em que cheguei, a caminho do Parque Nacional, fui atraído pela placa pitoresca na beira da estrada. Não tive dúvidas: peguei a estradinha ao lado da dita cuja e já fui conversando com a namorada sobre a gelada que tomaríamos, talvez com um bom tira-gosto de pato. Desilusão! No final da estrada, nada de bar e menos ainda de pato. Apenas uma casa humilde e fechada com uns pintos magrelos ciscando no terreiro. Bati palmas, chamei. Nada! Mistérios…

Conjunto Ceará (Makulelê, Bar do Nogueira e Antoim da Burra)


O Conjunto Ceará, bairro de Fortaleza, é um celeiro de artistas e boêmios. Cito aqui três bares, todos na ativa, mas há inúmeros.

O Makulelê, antigo Shangri-lá, fica no Polo Cultural. Faz parte de uma história de lutas e resistência no bairro. Remanescente ainda do período da administração popular de Maria Luíza Fontenelle, foi palco de saraus, shows inesquecíveis, namoros, noites agradáveis e madrugadas ébrias. Em uma delas, como não havia mais o que comer no bar e a fome era grande, ficamos esperando até passar o padeiro do bairro, aí por umas 5h30 da manhã, para aplacar o estômago.

Bar do Nogueira – o melhor espetinho do Conjunto. O Nogueira é mais um Clube do Bolinha do que propriamente um bar. Nos finais de semana ou feriados junta uma seleta clientela de marmanjos. Os tiras gostos, cujos ingredientes muitas vezes os fregueses trazem, são preparados no local pelo próprio Nogueira ou já vêm prontos. Pratos principais: a amizade e a tradicional molecagem cearense. Mas também rola fava, churrasco, feijão verde, porco ao molho, curimatã... 

Aos domingos, cenas assim são comuns: por volta de 13h, um menino chega na porta e grita a um dos clientes – “pai, a mãe tá esperando o senhor com a mistura do almoço até agora!” Vixe! E lá vai o desnaturado marido comprar outra mistura pois a primeira ficou, junto com cervas e canas, no bucho dos confrades. 

Rotina: quase todo final de semana, alguém trava uma peleja para ir embora porque algum espírito “malino” escondeu seus chinelos. Ou a chave do carro. Ou ambos.

Nogueira, dono do bar, em frente a uma churrasqueira com uma faca na mão



Antoim da Burra ou simplesmente “Da Burra” - Point dos sinuqueiros e da rapaziada do carteado. Se o Rui Chapéu estivesse vivo, com certeza estaria lá em corpo. Em espírito com certeza está. Bom atendimento, simpatia e tranquilidade são as marcas registradas. Exceto quando tem jogo do Ceará e Fortaleza. Aí colocam uma TV, quase um mini telão no bar, e a gritaria é infernal. Após o jogo, tudo segue em boa paz.

Parque Santa Rosa - Bar Sindicato dos Cornos

Parte da parede do bar com uma pintura artesenal e os dizeres "bar Sindicato dos " abaixo, o desenho de uma cabeça de boi


O Santa Rosa, também em Fortaleza, é um bairro da Região Sul da cidade. Os nomes das ruas são extremamente poéticos. O honorável Sindicato dos Cornos, por exemplo, fica na rua Tulipa Negra.
Tem uma clientela fixa, cuja maioria mora nos arredores. Alguns na própria rua como, é o caso do famoso Gilberto Cancão e do Sérgio. O tira gosto vem em bacia de alumínio e se você estiver liso, nunca falta um litro em uma das mesas onde sempre cabe mais um. O João Corno, dono, garçom e cozinheiro, é de uma gentileza e bom humor a toda prova. Se alguém tem um comportamento indevido, ele dá uma suspensão: o elemento fica determinado período sem poder frequentar o bar.
Desnecessário dizer que a cornagem é o assunto principal. Locais como o Sindicato, ainda que indiretamente, ajudam no combate ao machismo e à violência contra a mulher.


São Luís (Cachaçaria do Batista e Bar do Corintiano)


Cachaçaria do Batista  - em 2018 estive em São Luís (MA) e logo no primeiro dia, meu amigo que bancava o cicerone me levou pelo Centro Histórico até a Cachaçaria do Batista. Como escrevi em outra crônica, a Cachaçaria fica pros lados do Convento das Mercês, em algum beco ou travessa. Creio ter visto mais de 100 variedades de cachaça. Pense em alguma folha, fruta ou raiz que possa ser misturada com o destilado e você encontra. Cachaça de pitomba, cachaça de gengibre, cachaça de banana... Aí se perde a conta. Ele é muy cerimonioso. Na época em que fui, acompanhado por um amigo jornalista que o conhece de há muito, nem foto permitiu. Melhor. Leva-se só a lembrança.

Bar do CorintianoO Corintiano fica na Feira, que é um grande armazém de secos e molhados. Além disso, serve comida, bebida, artesanato, diversão… E diferente de outros mercados que conheci, fica aberto durante parte da noite. Não passei uma única vez no Corintiano para não encontrar o balcão lotado, todo mundo rindo e bebendo em boa paz. Um alvoroço. As bebidas do maestro têm títulos autoexplicativos e prometedores: “Fogosinha”, “Fogozada”, “Gogozada” e “Fura Ferro”. Recomendo todas moderadamente e com a devida e prévia libação. Laroyê!

Garrafas de tiquira, fogozada etc



Benfica (Pitombeira e Bar do Panelada)

Morei por anos no Benfica, outro bairro de Fortaleza e assisti a uma boa quantidade de bares serem abertos, fechados e reabertos. Alguns desses são/foram antológicos como o Bar do Ray, Chaguinha e Cantinho Acadêmico (na ativa). Aqui, vou me ater a dois somente.

Pitombeira – o típico boteco de estudantes lisos. Cerveja barata, mesas na calçada, meiota no preço e PF. Aí pela primeira década do século,  sempre tinha alguém se esgoelando com um violão (ou dois). Depois começou a praga do forró de plástico e o Marcos e a Marlene, os donos, seguiram o (des)gosto da clientela. Parte significativa dos moradores(as) de Fortaleza deve ter passado pelas mesas de plástico do Pitombeira, ainda mais em época de pré e carnaval. Recentemente, acho que anda meio deserto devido à pandemia e aos concorrentes localizados do outro lado da Av. 13 de Maio, que adotaram o seu jeito de ser.

Foto de uma árvore (pitombeira) que tem em frente ao bar



Bar do Panelada – o Panelada era só para iniciados. Constituía-se em um trailer caindo aos pedaços que ficava nas margens do Canal do Jardim América e ao qual se chegava passando por uma passarela de zinco com armação de ferro estendida sobre o canal e tão decrépita que, ao cruzar, você tinha a sensação do banho iminente. O dono (Panelada) era praticante de alguma arte marcial desconhecida. Bombado, de camiseta e faixa amarrada na cabeça, era aquele tipo de sujeito que lhe mata rindo. 

Certa vez levei uma amiga para apreciar o romântico pôr do sol à beira do canal. Ela na cerveja, eu na cachaça. No quesito de tira gosto, só existiam duas opções: a primeira já se adivinha e a segunda era baião de dois com peixe assado na brasa. Pedimos baião. Quando veio, comecei a pilhéria de que o Panelada pescava os carás que servia ali mesmo, no canal. Ele endossou jurando de pés juntos. Minha amiga cuspiu o que estava mastigando, pegou a bolsa e nem deu tchau. Se ela estiver lendo isso, explico que os carás eram limpinhos. Vinham do Mercado São Sebastião.


Iparana - Barraca do Chico da Mundola


Iparana é um bairro de Caucaia. Praia com falésias e água limpa. Tem muitos bares e barracas. Minha preferida é a barraca do seu Chico da Mundola. Situada sobre uma falésia, tem pequenas cobertas de palha sobre as mesas e uma área central, do tipo alpendre. Local simples e acolhedor. Peixe fresco, lagosta, baião de dois, cerva gelada e pinga. A comida é preparada na hora: caseira, simples e gostosa. O atendimento também é ótimo, feito pelo seu Chico e pelo Baim, seu filho. O preço é justo e a visão do mar, de cima da falésia, não tem preço. Local bom e discreto para levar o novo xodó ou um velho amor.


BH (Bar do Nonô, Onhas do Jequi)


Belo Horizonte, Belzonte ou só BH tem a fama de ser a cidade com o maior número de bares do Brasil. Não descreio. Aqui, só cabem dois.

Bar do Nonô – o Nonô já virou uma instituição. Fica no Centro de BH, na avenida Amazonas, com entrada pela rua Tupis. Conheci no início dos anos 90 após um acampamento em Barão de Cocais, do qual voltei em pandarecos. Ia trabalhar no dia seguinte e um dos parceiros sugeriu tomar um “fortificante” no Nonô. Caldo de mocotó em caneca com ovos de codorna crus e cheiro verde. Acompanha a cerveja preta Caracu. Antes do caldo, uma abrideira de Januária. Virei freguês. Em 2019 estive novamente na cidade e de todos os bares que conheci em meados dos anos 90, o único que permanece aberto é o Nonô. Que tenha vida longa e que a receita do caldo nunca se perca.

Onhas do Jequi – De saudosa memória, e não só para mim, o Onhas era um boteco com ar hippie, ali pros lados da Praça da Liberdade. O nome e a temática eram alusivas ao Vale do Jequitinhonha, a região mais nordestina das Gerais. Ia com uma turma de amigos mineiros(as) e ouvíamos, sem ter de pedir, Ednardo, Belchior… Tudo regado a muita cana, namoros ocasionais e volta pra casa em corujões. Nem conto às vezes que peguei o ônibus errado e fui acordado pelo cobrador no final da linha de não sei onde. Mas pagava a pena. Fim de semana seguinte, quando os trocados davam, lá estávamos nós de novo.


Guaramiranga (Bar do Odilon)


Carnaval, começo deste milênio (ou final do milênio passado). Acontece o Primeiro Festival da Neblina, que depois virou o Festival de Jazz e Blues de Guaramiranga. Nos primeiros anos, ia muita juventude alternativa (e sem grana). Barracas armadas pelas ruas da cidade, no campo de futebol, nos quintais e até na quadra.  Artistas, alguns intelectuais, estudantes, a malucada de BR... Desde os primeiros eventos, o point dessa turma era o Bar do Odilon. Localizado na rua principal,  foi o verdadeiro centro cultural dos primeiros anos do Festival. Novas amizades, velhos amigos se encontrando, som alternativo de todo tipo e muita, muita cachaça: com pitomba, com beijo, com chuva, com churrasco ou pura mesmo. Na sinuca, quem perdesse passava por baixo da mesa.
O dono, seu Odilon, atendia a todos com paciência de Jó, ajudado por um dos filhos (Orleans), o genro e a filha. No carnaval, o bar fechava  por volta de 5h da matina e abria às 10. Seguramente eu passava mais tempo no Odilon do que na minha barraca ou vendo os shows ou indo de pau de arara pras cachoeiras. 
Ei Orleans, bota mais uma odilombra aqui, meu chapa! E traz duas fichas de sinuca...


Escrita entre o último domingo de janeiro e a sexta-feira de carnaval, 12 de fevereiro do ano da (des)graça de 2021.


09 fevereiro, 2021

A era digital está virando uma nova idade das trevas

 A máscara da economia digital adotada pelo capitalismo em sua fase neoliberal está se mostrando mais selvagem que as versões anteriores. Em vez de caminharmos para uma era da informação, prosperidade e esclarecimento, estamos regredindo à idade das trevas.

Artigo também publicado no portal O Povo Online/Blog do Eliomar em 09/02/21


Dois autores essenciais para pensar o mundo de hoje e para onde iremos amanhã, são Cédric Durand, autor de “Tecnofeudalismo: crítica da economia digital”  e Naomi Klein, que escreveu “A Doutrina Do Choque. A Ascensão Do Capitalismo Do Desastre”.

Durand, cujo livro ainda não tem tradução para o português, aborda a ideia de que com as novas tecnologias, o capitalismo se renovou regredindo. O Big Data e as Big Techs (Google, Amazon, Facebook, Uber...) não tornaram melhor a vida das pessoas, mas estão criando verdadeiros feudos e tornando impossível a sobrevivência econômica  sem o uso das grandes plataformas onde predominam o monopólio, a vigilância e a captura de dados em um processo que se autorreforça pois seus serviços são cada vez mais indispensáveis.

“No seio do mercado, havia uma monopolização, por parte do capitalismo, dos meios de produção, mas estes meios eram plurais. Os trabalhadores precisavam encontrar emprego e, de certo modo, podiam escolher o posto de trabalho. Existia uma forma de circulação que dava lugar à concorrência. Nesta economia digital, neste tecnofeudalismo, os indivíduos e também as empresas aderem às plataformas digitais que centralizam uma série de elementos que lhes são indispensáveis para existir economicamente na sociedade contemporânea. Trata-se do Big Data, das bases de dados, dos algoritmos que permitem os processos”.

Já Klein mostrou como o capitalismo usa graves crises, muitas das quais provocadas por ele mesmo, para aplicar medidas desumanas e até genocidas, com investidores privados se apropriando de bens e recursos públicos e depois transformando essas reformas em mudanças permanentes.

Em  meados do ano passado, ela publicou o artigo “Corporações tentam acelerar distopia tech” revelando como os gigantes do Vale do Silício estão usando a pandemia Covid-19 para aumentar seus lucros e redesenhar o mundo.

“Muito mais high-tech do que qualquer coisa que vimos nos desastres anteriores, o futuro que está surgindo à medida que os cadáveres ainda se acumulam está tratando nossas últimas semanas de isolamento não como uma necessidade dolorosa para salvar vidas, mas como um laboratório vivo para um futuro permanente — e altamente lucrativo — sem contato físico.

Esse é um futuro em que, para os privilegiados, quase tudo é entregue em casa, virtualmente por meio de tecnologia de streaming e nuvem, ou fisicamente por um veículo sem motorista ou por um drone, e então ‘compartilhados’ na tela de uma plataforma mediada. É um futuro que emprega muito menos professores, médicos e motoristas...É um futuro que alega ser executado por ‘inteligência artificial’, mas na verdade é mantido em funcionamento por dezenas de milhões de trabalhadores anônimos escondidos em armazéns, centros de dados e moderação de conteúdos, fábricas escravizantes de eletrônicos, minas de lítio, fazendas industriais, frigoríficos e prisões, onde são deixados desprotegidos de doenças e hiperexploração. É um futuro em que todos os nossos movimentos, todas as nossas palavras, todos os nossos relacionamentos são localizáveis, rastreáveis e passíveis de terem seus dados minados por colaborações inéditas entre os governos e as empresas gigantes de tecnologia”.

Esse futuro apontado por Durand e Klein é sombrio. Moldado por uma aliança espúria entre grandes empresas de tecnologia, corporações financeiras e governos, aponta para a instauração de monopólios, dependência, manipulação política, privilégios e predação global.
Está calcado na disseminação de mentiras (fake news), absurdas teorias da conspiração, como a de que vacinas são maléficas, e meias-verdades usadas para confundir em vez de informar.
Pressupõe, como já acontece em muitos lugares, uma vigilância constante e o uso de nossos dados por empresas privadas para fins comerciais ou para detectar e influenciar as tendências políticas e os comportamentos sociais, como ocorreu nas eleições de Trump e Bolsonaro.
Ao contrário dos que muitos afirmam, as tecnologias não são neutras e precisam ser reguladas, tendo em conta os direitos e o bem-estar da maioria.

A máscara  da economia digital adotada pelo capitalismo em sua fase neoliberal está se mostrando mais selvagem que as versões anteriores. Em vez de caminharmos para uma era da informação, prosperidade e esclarecimento, estamos regredindo à idade das trevas.

Links:
A hipótese do Tecnofeudalismo - https://bityli.com/c65OL
Corporações tentam acelerar distopia tech- https://bityli.com/NYevU

29 outubro, 2020

E a terra, que não é plana, vai voltar a tremer

Auto de fé em Portugal (gravura)

 


 

 




Artigo também publicado no portal O Povo Online/Blog do Eliomar em 30/10/2020

“Depois do terremoto que havia destruído três quartos de Lisboa, os sábios do país não tinham encontrado um meio mais eficaz para prevenir uma ruína total senão dar ao povo um belo auto de fé; fora decidido pela universidade de Coimbra que o espetáculo de algumas pessoas queimadas em fogo brando, em grande cerimônia, é um segredo infalível para impedir a terra de tremer.


Tinha-se, em consequência, prendido um biscainho convencido de ter desposado a sua comadre, e dois portugueses que, comendo frango, tinham-lhe retirado o toucinho; vieram prender depois do jantar o dr. Pangloss e o seu discípulo Cândido, um por ter falado e o outro por ter escutado com ar de aprovação...Cândido foi surrado em cadência, enquanto se cantava; o biscainho e os dois homens que não quiseram comer toucinho foram queimados, e Pangloss foi enforcado, embora não fosse o costume. No mesmo dia a terra tremeu com um estrépito espantoso.”


O trecho acima do conto de Voltaire, “Cândido ou o otimismo” é uma das melhores analogias que se pode encontrar para a reforma administrativa, enviada ao Congresso pelo presidente de extrema direita, Jair Bolsonaro.


Ele anunciou a reforma no mesmo dia em que a economia tremeu com o anúncio da queda de 9,7 do PIB no segundo trimestre desde ano. Um auto de fé para acalmar o deus mercado, essa entidade onipotente e incorpórea que governa os rumos da economia e da política e à qual Bolsonaro, Paulo Guedes e outros prestam vassalagem.


A reforma, que irá ao Congresso em fatias,  pretende acabar com  a estabilidade do servidor público, prorrogar estágio probatório, acabar com a promoções e progressões por tempo de serviço, reduzir concursos, salários e carreiras e até juntar órgãos públicos e empresas privadas no mesmo espaço, com as empresas se beneficiando do que é público. No entanto, a reforma não afeta militares, juízes, parlamentares e nem membros do Ministério Público. Alguns juízes e membros do Ministério Público conseguem ter rendimentos de mais de R$ 100 mil por mês. Já no caso dos militares, o Ministério da Defesa tem a segunda maior folha de pagamento entre todos os ministérios, inclusive o da Educação. E para fazer o que mesmo? Enquanto isso, a grande maioria dos funcionários públicos brasileiros ganha pouco e mal. No caso dos servidores das prefeituras, de cada 100 funcionários, 61  recebem mensalmente entre um salário mínimo e dois salários e meio.


O governo diz e a mídia repercute cegamente que o país não tem dinheiro para pagar os servidores. Mentira. Quase metade do orçamento da União é consumido com juros e amortizações da dívida pública. Uma dívida que ninguém sabe quem fez e que nenhum governante quer auditar. A dívida é impagável. 


Recentemente Bolsonaro tentou, via decreto, começar a privatização do SUS a partir dos postos de saúde. Apanhou e recuou. Daqui há pouco tenta de novo.


O Brasil está assistindo a volta da fome, da queda em todos os indicadores sociais, a destruição ecocida do meio ambiente e um verdadeiro genocídio com mais de 156 mil mortos vítimas da Covid-19. Boa parte dessas mortes poderia ser evitada se o presidente e seus ministros agissem com o mínimo de responsabilidade.


O auto de fé da reforma administrativa visa acabar com o que resta da função social do Estado e levar milhões à fome, doença e a morte para garantir por mais alguns anos os lucros de um punhados de banqueiros e especuladores parasitas. Não vai dar certo.


E a terra, que não é plana, vai voltar a tremer.



Links com fontes: 

https://economia.uol.com.br/noticias/deutsche-welle/2020/09/03/servidor-ganha-demais-na-verdade-funcionalismo-e-desigual-como-o-brasil.htm

https://auditoriacidada.org.br/conteudo/grafico-do-orcamento-federal-2019-2/

https://auditoriacidada.org.br/conteudo/faixa-livre-fattorelli-pec-32-e-a-destruicao-do-estado-social-da-constituicao-de-88/



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