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17 agosto, 2026

Festa de Iemanjá na Praia de Iracema

 
 

Na noite de 14 de agosto e durante o dia 15, a Praia de Iracema muda.

O local deixa de ser somente o habitat dos meirelers,  templo do comércio  e um dos playgrounds da especulação imobiliária.



 
 
 Milhares de pessoas vêm para a Festa de Iemanjá, no aterro da Praia de Iracema. A maioria é dos bairros periféricos  e enfrenta  uma quase romaria, organizada pelos terreiros. 

Vestem branco.  Trazem seus tambores, sua fé e suas crianças. Trazem flores e axé para reverenciar Iemanjá, Senhora do Mar.

O apoio público, dado em larga escala a eventos de outras religiões, como o festival Halleluya, não chega na Festa de Iemanjá e nem em outros eventos da Umbanda. Mesmo assim, os povos de terreiro continuam fazendo essa Festa, saudando suas entidades e manifestando sua resistência. A Festa de Yemajá também acontece na Praia do Futuro (local onde omeçou), no Mucuripe, Poço da Draga e Barra do Ceará.

Odoyá! Saravá a maresia!
 

13 junho, 2025

Vem aí documentário sobre o Quilombo Serra da Rajada

 


Realizadores estarão na comunidade entre os dias 13 e 16 de junho. Foto:divulgação

O Quilombo Serra da Rajada, no distrito de Tucunduba, em Caucaia, é guardião de um rico patrimônio material e imaterial. 
A comunidade preserva tradições, memórias, objetos históricos e construções simbólicas que testemunham séculos de resistência e vivência ancestral.

O documentário "Trilha de Saberes Ancestrais" registra encontros com guardiões da memória, que conduzem o público por locais históricos como as Casas de Pedra, a Casa Grande, a Capela de São Sebastião, a Loca de Xangô, a antiga Senzala de pedra, que ficou conhecido como castelo. E a Pedra da Rajada, conhecida pela comunidade como “o Cabeço” - um dos picos mais alto do estado.

Entre os dias 13 e 16, os realizadores Murillo Sales, Jaqueline Lima e Henrique Dídimo estarão na escola da comunidade EQEIEF Yara Guerra Silva, ministrando oficinas com jovens quilombolas, que também irão atuar como co-autores do filme. 

O projeto foi contemplado no Edital N° 002/2024 _Secult Caucaia- apoio a projetos culturas de audiovisual.




19 outubro, 2024

Pai Gerson, presidente estadual do Instituto Carta Magna da Umbanda do Ceará, declara voto em Evandro Leitão e articula o apoio com outras lideranças religiosas

 

Foto realizada durante a 1ª Caminhada Contra a Intolerância Religiosa, em 15/11/23, no Centro de Fortaleza.

Pai Gérson,  presidente estadual do Instituto Carta Magna da Umbanda do Ceará, se pronuncia sobre as atuais eleições:  "Não podemos deixar que um candidato bolsonarista, cujos aliados praticam intolerância religiosa, um candidato homofóbico, negacionista, que discrimina mulheres, negros, GLBTs, e tem como aliados os que estão na atual administração da Prefeitura e representa esse sistema injusto, seja eleito e piore ainda mais a vida do povo da nossa cidade,  ampliando o preconceito religioso contra nós, povos de terreiro. Por isso, meu voto é 13. Vamos de Evandro Leitão!”

Foto realizada durante a 1ª Caminhada Contra a Intolerância Religiosa, em 15/11/23, no Centro de Fortaleza.

11 agosto, 2024

Documentário aborda a importância de Pacatuba na rota do café

Filme traz fatos curiosos e motiva reflexão histórica

Já está disponível para assistir no streaming, o documentário “Pacatuba na rota do café”, que aborda a história do café no Ceará, trazendo elementos importantes e curiosos sobre a cafeicultura e sua relevância na formação do município de Pacatuba.


O documentário vem recheado de histórias saborosas e outras nem tanto: de como o café chegou ao Ceará, no século, XVIII, sendo inicialmente plantado na Serra da Meruoca e de como, posteriormente, a elite traiu um acordo do rei de Portugal com os indígenas e desencadeou conflitos para plantar café nas serras. 

Outro exemplo, é que o pai do poeta Juvenal Galeno foi um dos introdutores do café em Pacatuba e que os voluntários da cidade, que iam pra Guerra do Paraguai, em 1860, se apresentaram ao lado da igreja Matriz , com um ramo de café atrás da orelha, o que mostra a importância da cafeicultura na época.

A diretora Eduarda de Lemos Pinho durante as filmagens


O vídeo se baseia em uma pesquisa sólida, tem um roteiro ágil e traz entrevistas com historiadores, especialistas e moradores, entremeando-as com belas imagens, principalmente da serra de Pacatuba, onde até há pouco tempo uma parte das pessoas não comprava café em mercearias ou supermercados, mas simplesmente colhiam e torravam o café em casa, tempo de uma vida mais simples e menos capitalista. Vale a pena assistir!


O documentário, dirigido e corroteirizado por Eduarda de Lemos Pinho, foi um projeto contemplado na Lei Paulo Gustavo - Edital da Secretaria de Cultura de Pacatuba (Ceará) e conta com interpretação em libras e legenda. Vale a pena ver


Serviço: Pacatuba na rota do café
Streaming: https://www.youtube.com/watch?v=lM_3TQQR5HQ
Créditos: Pesquisa: Eduarda de Lemos Pinho Roteiro: Eduarda de Lemos Pinho e Ton Almeida Direção: Eduarda de Lemos Pinho Assistente de Direção: Sivirino de Caju Produção: Eduarda de Lemos Pinho Captação de imagens: Sivirino de Caju Edição: Sivirino de Caju e Eduarda de Lemos Pinho Trilha sonora original: Gabriel Marquez e Sivirino de Caju Legenda: Eduarda de Lemos Pinho Intérprete de Libras: Islandia Castro @sentidosinclusos



07 agosto, 2024

Cine Molotov comemora 15 anos com exibição de documentário sobre presos políticos

 

Iniciativa independente leva cinema de forma gratuita a locais públicos


Agosto chegou e o Cine Molotov inicia as comemorações dos seus 15 anos, com a exibição do premiado documentário Escuridão na Terra da Luz, do diretor, produtor e fotógrafo Popy Ribeiro.

O documentário traz uma série de entrevistas com ex-presos políticos da ditadura militar de 1964, além de filhos de ex-presos e pesquisadores, fazendo um recorte de fatos ocorridos no Ceará.

O filme foi premiado como melhor longa-metragem na Mostra Olhar do Ceará no 32º Cine Ceará, sendo premiado também na Europa como Melhor Direção e Melhor Produção na 7ª edição do Marginal Art Festival de Madrid (Espanha), e selecionado na mostra Brasileirinho da Euroart Gallery na cidade de Leiria (Portugal).







A sessão acontecerá no 13 de agosto (terça-feira) às 18h30 na Praça Rosa Fonseca no Benfica, em mais uma parceria com o grupo Crítica Radical. Para debater com o público teremos a presença do diretor, é só chegar, se aconchegar e participar.


Essa sessão é uma iniciativa sem financiamento de editais

Você pode apoiar o cineclubismo independente, com a doação de qualquer valor pelo pix: cinemolotov@gmail.com (Banco Next - A. N. B.). Saiba mais no perfil do Instagram @cine.molotov.

Serviço:
Cine Molotov exibe Escuridão na Terra da Luz
Documentário, 90 minutos, direção de Popy Ribeiro
Dia 13 de agosto de 2024 às 18h30
Na Praça Rosa Fonseca - Rua João Gentil, 59, Benfica.
Aberto ao público.





22 julho, 2024

Mulheres em situação de rua usam sujeira para se proteger do estupro e da violência

O Brasil, como o restante das Américas, teve em seu passado mulheres indígenas e negras caçadas a laço e a dente de cachorro, para servirem aos homens no trabalho na cama. Essa herança colonial, impregnada de machismo, racismo e patriarcalismo, continua viva. E matando.
Recentemente a jornalista Beatriz Jucá escreveu artigo intitulado “No país que santifica meninas estupradas, não estamos seguras nem no elevador”. Ela fala do caso da menina Benigna, estuprada e morta e “que a igreja conta ter dado a vida e virado mártir para proteger sua honra e manter-se casta. Uma vítima de estupro, perseguida por um conhecido da escola e assassinada cruelmente virou símbolo da castidade. Mas Benigna não teve escolha nem decidiu morrer”. O artigo trata ainda de duas mulheres, uma jovem e uma idosa, recentemente apalpadas em elevadores.

Em 2023, o Brasil registrou um crime estupro a cada seis minutos. Os dados são do 18º Anuário Brasileiro de Segurança Pública. “Com um total de 83.988 casos de estupros e estupros de vulneráveis registrados e um aumento de 6,5% em relação a 2022 o país atingiu um triste recorde. As mulheres são a maioria das vítimas e os agressores estão, na maior parte das vezes, dentro de casa.” Ou seja, as mulheres não estão seguras nem em casa e nem na rua.



E isso independente de classe social. É emblemático o caso de Jullyene Lins, ex-mulher do presidente da Câmara, que o denuncia por violência e cuja matéria da Agência Pública foi censurada, censura estendida a outros veículos que posteriormente noticiaram o caso.
Também recententemente o Intercept Brasil denunciou o caso de uma menina de 13 anos, obrigada pela Judiciário a manter uma gravidez por estupro. Conforme denúncias, o pai da garota fez “um acordo” com o estuprador e, com a ajuda de um grupo antiaborto (advogado, padre, freira…) entrou na justiça para impedir ou retardar o aborto da própria filha. “O caso mostra que, mesmo com a derrota do PL do Estupro, prevalece o direito do feto sobre o de uma menina estuprada – além de evidenciar a influência da direita religiosa sobre o judiciário”. O PL antiaborto, parido pela extrema direita e endossado pela bancada evangélica, previa que caso houvesse a interrupção de uma gestação de mais de 22 semanas, a mulher poderia pegar pena de até 20 anos, em alguns casos mais que o dobro da pena do estuprador, que pode ser de 8 anos. Artur Lira já sinalizou que pretende trazer de volta a pauta esse PL logo após as eleições municipais.
Segundo o 18º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, “de todas as ocorrências de estupro verificadas em 2023, 76% correspondem ao crime de estupro de vulnerável, tipificado na legislação brasileira como a prática de conjunção carnal ou ato libidinoso com vítimas menores de 14 anos ou incapazes de consentir por qualquer motivo, como deficiência ou enfermidade.”
Semana passada, conversando com um educador social que atua em um equipamento cultural, em Fortaleza, e no entorno do qual há uma praça com várias pessoas em situação de rua, ele me chamou a atenção para um fato: muitas das mulheres em situação de rua, sejam cis ou trans, andam com as roupas sujas de fezes, urina, mestruação...Segundo ele, não é por desleixo. O uso da sujeira é uma estratégia delas para se proteger do assédio e da violência sexual. A violência contra mulheres atinge todas as classes sociais. Mas quem é criança, pobre, negra, indígena ou está em situação de rua, sofre bem mais.
Haroldo Barbosa, jornalistahttps://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2024-07/brasil-registra-um-crime-de-estupro-cada-seis-minutos-em-2023
https://diariodonordeste.verdesmares.com.br/opiniao/colunistas/beatriz-juca/no-pais-que-santifica-meninas-estupradas-nao-estamos-seguras-nem-no-elevador-1.3533694
https://apublica.org/2024/06/reportagem-da-publica-sobre-arthur-lira-segue-censurada/https://www.intercept.com.br/2024/07/10/justica-obriga-menina-de-13-anos-a-manter-gestacao-apos-estupro-em-goias/

22 março, 2024

MULHERES DE TERREIRO DO CEARÁ REALIZAM I ENCONTRO ESTADUAL: CONTRA A INTOLERÂNCIA RELIGIOSA, RACISMO E MACHISMO

 

Evento acontece no Cuca do Mondubim na quarta-feira, 27 de março, com o início às 15h 

 

 
O Instituto Carta Magna da Umbanda - ICMU - do Estado do Ceara realizará no dia 27 de março. no Cuca do Mondubim o I Encontro Estadual de Mulheres de Povos de Terreiro.


O Encontro tem como objetivo  promover a equidade, defender e alavancar os direitos dos povos de terreiro, combater a intolerância religiosa, o racismo e o machismo. O ICMU, através do seu presidente, Pai Gérson da Mãe Maria e de toda sua diretoria, busca  através de eventos como este, dar visibilidade aos povos de terreiro e garantir o respeito do poder público e da sociedade civil.


Para o primeiro momento do Encontro, O ICMU convidou representantes de órgãos públicos do  poder judiciário e  do Executivo ligados à Prefeitura de Fortaleza, ao Governo do Estado do Ceará e ao Governo Federal. O objetivo do debate é chamar a atenção do poder público para a temática do Encontro e ver quais ações estão em curso por parte desses órgãos.


O segundo momento acontece com a presença das autoridades religiosas de terreiro. Para mãe Taty “Esse encontro visa reivindicar nossos direitos como mulheres de terreiro, lutando contra o racismo, a intolerância religiosa, o machismo e o fascismo que tanto nos atingem. Nossas pautas não são únicas”.
 

 


06 dezembro, 2022

Uma festa punk

 

Livro conta história do Movimento Punk de Fortaleza a partir das experiências de um dos seus primeiros integrantes

No sábado, 10/12, haverá o lançamento do livro “Os velhos dias”, de Will Lezado Ruas. O livro traz parte significativa da história (ou das histórias) do Movimento Punk de Fortaleza, contada por um dos seus primeiros integrantes.

Um misto de diário pessoal, tratado etnográfico, manifesto político, livro de poemas e canções e documento histórico.

O texto foi manuscrito pelo Lezado em um caderno escolar, circulou, depois foi datilografado por ele mesmo em uma máquina de escrever doada por um amigo, circulou mais um pouco e agora chega em formato impresso pela ação dos próprios integrantes do movimento. Nesse novo formato está mantida a ideia original do projeto gráfico da fotocópia e máquina de escrever. O livro traz ainda várias fotos da época em que foi escrito e está sendo publicado em um projeto coletivo da DIYfusão Editora.



Lá estão os festivais , a falta de perspectiva da juventude pobre e periférica de Fortaleza no final dos anos 80 e começo dos anos 90, as festas, as prisões, mortes, as reuniões, passeatas etc. Mas também muito lirismo e coragem pra viver e enfrentar o capitalismo. Com música e rebeldia.




Certa vez vi em um jornal local cujo objetivo parecia ser chamar a atenção para um vocalista de uma banda daqui, a história mal contada do movimento, idolatrando a figura do Dedé Podre e baseada em um cara que morava na suécia e tinha cadernos com escritos do Dedé e sobre o movimento.

Contestei. Não precisa ir a Suécia para saber a história do punk em Fortaleza, que não se resume a uma figura. Muitos dos/das integrantes estão vivos. Alguns/algumas, ainda punks. Até hoje fico (fico?) admirado com a falta de estudos e publicações (com exceção dos zines publicados pelos integrantes do movimento) sobre o punk em Fortaleza, quiçá no Ceará. Este livro preenche parte dessa lacuna.

O lançamento será durante o Festival de Filmes Punk e Anarquista de Fortaleza e terá show de bandas punk, inclusive da Grilus Sub, banda na qual o Lezado tocou por vários anos. Haverá também  feirinha e outras atrações. O lançamento é também uma homenagem póstuma, pois o Lezado faleceu em 2018.

Serviço:
Lançamento do livro “Os velhos dias”.
Quando: sábado, 10 de dezembro, a partir das 15h
Onde: Las Crias, avenida da Universidade, 2064
Preço do livro  para pré-venda: R$ 25,00


28 setembro, 2022

NO DOMINGO, ELES PASSARÃO. NÓS PASSARINHO.

 


Artigo publicado em 28/09/22. Também no Portal O Povo

Não podemos dar chance ao genocida, que ocupa o cargo de presidente, a ter mais um mês de campanha,  arrastando para um segundo turno a eleição


Domingo eu vou votar. E vou votar com a certeza de que não estamos vivendo uma eleição normal. 

Como escreveu Conrado Hübner,  professor da USP, em artigo intitulado  É voto de sobrevivência, não é voto útil:  “A eleição presidencial de 2022 converteu-se numa eleição existencial. Se quiser provas, percorra as páginas do jornal de hoje, de ontem, de amanhã. Não se compara com qualquer eleição entre 1994 e 2014. Nem mesmo à eleição de 2018. Por nenhum critério relevante. Somente a indiferença ou a cegueira à espiral da violência política, do armamento militante de grupo atiçado por filosofia política da supressão do mais fraco, levam a conclusão diferente.”

É uma eleição para começar a pôr fim à essa distopia presente na qual o Brasil se enfiou.

Um exemplo: temos 33 milhões de pessoas que não têm o que comer no país. Regredimos 30 anos em quatro. Para quem pode se alimentar, isso parece só um número. Não é. Essa fome não é a que você sente entre o almoço e o jantar. Sei porque já passei.

Não podemos dar chance ao genocida, que ocupa o cargo de presidente, a ter mais um mês de campanha,  arrastando para um segundo turno a eleição e facilitando uma  tentativa de golpe, aprofundando esse clima de ódio com agressões, assassinatos, mentiras e medo.

Bolsonaro se alimenta de ódio e confusão. Citando novamente Hubner “um segundo turno é a colher de chá que deseja: o prêmio de quatro semanas em que pode disparar, sem afetar interesses eleitorais de aliados, seu arsenal atômico”.  A eleição para presidente precisa ser resolvida em 1º turno, neste domingo.

Não há terceira via na luta contra o fascismo. Esse discurso de “despolarização” de Simone Tebet e, principalmente Ciro Gomes, podem dar a Bolsonaro o que ele quer. Até Xuxa e Angélica Huck, que já declararam voto em Lula, apresentam mais lucidez e compromisso.

Daqui até o dia 2, converse com parentes, amigos, colegas e até desconhecidos. Pergunte(se) o que melhorou na vida desde que esse elemento foi eleito. Vire votos.
E no domingo, vote contra o genocídio, o ecocídio, a fome, o fascismo e a corrupção. Lembre dos quase 700 mil mortos por covid e que muitos deles poderiam estar vivos. Lembre-se de Moa do Katendê, Marcelo Arruda, Antônio Carlos Silva e tantas outras vítimas. Vote contra a morte. Vote pela vida, pela paz e pela democracia. Citando o poeta Mário Quintana, e com a devida licença poética, quanto a esses que atravancam o nosso caminho,  “eles passarão/nós passarinho”.  Vote 13,  vote Lula!

E se for eleitor do Ceará, ouça o recado da governadora Izolda Cela: "Nem capitão cá, nem capitão lá."

09 dezembro, 2021

Uma gente careta e covarde

 


O que leva uma pessoa na condição social desse catador a pendurar esse trapo verde e amarelo em seu carrinho? Patriotismo por um país que o leva, devido ao desemprego, a um trabalho desumano e brutal, condição compartilhada por milhões, alguns até em situação pior? Tática de sobrevivência para não ser atropelado ou agredido por bolsominions, aqueles que odeiam pobres ? Um misto?

O que nos leva a aceitar passivamente, como se estivéssemos dopados, o genocídio, a corrupção escancarada, o aparelhamento das instituições e órgãos públicos e  a destruição do país?

A continuidade do governo Bolsonaro, o genocídio e essa destruição só são possíveis devido a Lira e a Pacheco (antes Maia e Alcolumbre), à maioria desse Congresso, constituída de criminosos, picaretas e vendidos, a Aras e ao acovardamento do STF.

As Forças Armadas são também mais que cúmplices. São artificies desse projeto, que teria naufragado sem a valiosa ajuda de Moro, Dallagnol, Tasso, Dória etc. Por trás, os grandes empresários, banqueiros, latifundiários e especuladores. É o óbvio, mas as vezes é preciso dizê-lo.

Seguimos rumo à barbárie e a destruição em um capitalismo ecocida e genocida, amparado pelas tecnologias da informação e com uma comunicação mediada por algoritmos. Meros espectadores do espetáculo do fim do mundo. Pessoas miseráveis. “Essa gente careta e covarde”.


Texto também publicad nos portais Segunda Opinião e O Povo Online

26 agosto, 2021

“Marco temporal”: não verás país nenhum?

 

 Créditos: APIB



O STF deve votar nesta quinta-feira, 26, o “marco temporal”, que trata sobre a demarcação de terras indígenas. A votação deveria ter ocorrido ontem, mas foi novamente adiada, sendo este o quarto adiamento em dois meses. Basicamente o “marco temporal” propõe delimitar apenas os territórios ocupados por indígenas antes de 1988. Aproximadamente sete mil indígenas estão acampados em Brasília para acompanhar o julgamento.


Se aprovado pelo STF, o “marco temporal” será um golpe definitivo na resistência à política de destruição ambiental e de direitos dos povos originários que vem sendo aplicada no país. O julgamento já começa de forma errada pois vão julgar um único caso (pedido de reintegração de posse do governo de Santa Catarina contra o povo Xokleng) tendo este julgamento repercussão geral em todo o país.


Se esse absurdo for aprovado, fortalecerá a política criminosa do governo de extrema direita de Jair Bolsonaro e de seus aliados, que vem destruindo o meio ambiente, desrespeitando a vida e os direitos dos povos originários e cometendo um verdadeiro ecocídio.


Até maio de 2020, o governo já havia autorizado mais de 250 mil hectares de fazendas em terras indígenas, sendo que parte delas foram autorizadas antes da Funai permitir registro em terras não homologadas.


Na terra indígena Yanomami, garimpeiros atacam aldeias a tiros e a facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC) está ligada à atividade de garimpos ilegais em terras indígenas e à lavagem de dinheiro usando ouro. Segundo o governador de Roraima, Antonio Denarium (sem partido), “todo o ouro produzido no estado de Roraima sai clandestino do estado”. Os bolsonaristas preferem negar essa realidade e culpar mais uma vez ONGs internacionais.





“A extração de 1kg de ouro de aluvião gera em média 7 hectares de desmatamento e erosão de 15 mil m³ de solo. Uma área demora 30 anos para recuperação de 80% dos serviços ecossistêmicos” (Pedro Gasparinetti, diretor da Conservação Estratégica (CSF-Brasil).


O governo Bolsonaro entupiu os órgãos de fiscalização (Ibama, Funai) de militares e desrespeitou a legislação que estabelece critérios mínimos de formação profissional e acadêmica para fazer isso. Em 2021, o Ricardo Salles e o Ministério do Meio Ambiente foram alvos de operação da PF. Despacho de Salles permitiu a regularização de mais de 8 mil cargas de madeiras exportadas ilegalmente entre 2019 e 2020.


Por sua vez, o tráfico de produtos florestais, principalmente madeira, tem servido de maquiagem para o tráfico de drogas do Brasil para a Europa. Foram identificadas “16 grandes apreensões de cocaína em cargas de madeira destinadas à exportação por via marítima entre 2017 e 2021. Ao todo, as apreensões somaram cerca de 9 toneladas da droga e tinham como destino países europeus”.

Além de traficantes e garimpeiros ilegais, outros que defendem a aprovação do “marco temporal” são os integrantes do agronegócio, grandes proprietários de terras que tẽm devastado o meio ambiente para plantar soja, fazer pastagens e criar gado.

Segundo a ONG Socioambiental “Hoje, 13,8% do território brasileiro é ocupado por terras indígenas, considerando os procedimentos demarcatórios já abertos e dados do DOU. Parece muito, mas a média mundial é maior: 15%...As áreas privadas somam três vezes mais ou 41% do Brasil, segundo o IBGE. Cerca 22% do território nacional é ocupado com pastagem - mas metade disso com algum grau de degradação - e 8% com agricultura, conforme o projeto MapBiomas”.


E para quem acha que o agro é pop, há uma investigação mostrando que parte dos lucros da cocaína são lavados no agronegócio e com elos na política.


Se o “marco temporal” for barrado, poderá reduzir os eventuais danos causados pelo “PL da Grilagem” (Projeto de Lei 2633/20) e que regulariza a ocupação indevida de terras públicas e facilita o desmatamento ambiental.

Em 1981, o escritor Ignácio de Loyola Brandão publicou o romance “Não Verás País Nenhum”. Hoje mais um capítulo dessa história está sendo escrito em Brasília.

Links consultados:

https://apublica.org/2020/05/com-bolsonaro-fazendas-foram-certificadas-de-maneira-irregular-em-terras-indigenas-na-amazonia/?




20 abril, 2021

Atlante

Foto: Luís Marcos

 

Nessa semana de morte, abro espaço no blog para um texto do parceiro Luís Marcos, que celebra a vida em nossa aldeia. Publicado em 20/04/21.

As palavras de molho. Os dias de calor e o asfalto alencarino, zumbindo nos ângulos urbanos. O que é que você me diz da gente dar uma esticada até aquele bar e tomar umas doses? As ruas locais suando em bicas esse sol todo dá cinema no ato. Enquanto eu virava a terceira dose e atirava o caroço de umbu naquele terreno abandonado.

 Agora qualquer semente é importante em uma cidade que decepa árvores à toa. Um fogo dentro da alma lembrando os ancestrais Tucarijus rodando por essas áreas e fazendo churrasco de gente, comendo-lhes as almas e a carne e quem sabe até as vísceras. 

Hei véi da pra trazer uma panelada pra nós? E o parceiro rindo de canto, feito um jagunço,  porém demostrando um certo ar aristocrático nos papos. 

Eu ali colado ao balcão, rindo por dentro. Bordunas rachando quengos, flechas abrindo brechas, isso tudo pra lá de cauim; e os branquelas querendo detonar os bugres, esses negros sem alma! 

E aí chegado vamos tomar mais umas aqui ou descamba pra outro bar? Assim nos vamos por outras paisagens. O índio velho mescla-se ao meu gole violento e essas ruas já foram palco de acirradas contendas. 

E nós nem sabemos falar quase nada do dialeto da nossa gente. Eu gosto é dessas ruas mas sei que em cada curva e cada ângulo foi projetados pela sanha que também veio pela Costa. Porra esse Sol me cai bem! Hei deixa de ficar alucinando e vamos por aí nas nossas naus de álcool, pra celebrar a onda dos bugres e dos branquelas, isso sem esquecer o nosso quintal. 

Eu piso com algum receio o asfalto evoluído de Fortaleza; vez ou outra as ruas e recantos me fisgam sem o menor valor estético e se armam pra mim como o berro dos silvícolas no fervor de uma batalha. 

Vamos nessa pivete e não esquece que a nossa procura é outra. O pior de tudo é que a minha ligação xamânica com o passado me entorta pelos locais nada turísticos da cidade. Nosso encontro é com o crepúsculo e a cada onda que quebra na praia é como um verso impossível de ditar ou escrever. 

A viagem toda é o crepúsculo envergado no arco da madrugada.


Para o Cartaxo de Arruda Júnior e ii memoriam de Airton Monte.

Luis Marcos

01 abril, 2021

Uma carga da cavalaria do sarcasmo



Neste 1º de abril de 2021, Dia da Mentira e aniversário do golpe militar-civil de 1964, aproveito para publicar posfácio que fiz para o Dicionário Involucionário, do Felipe Franklin Neto. O livro foi publicado em 2019, mas continua bem atual. Segue o texto e #ForaBolsonaroGenocida



2013: milhões nas ruas do Brasil. Milhares nas ruas de Fortaleza. Os manifestantes não sabiam ao certo o que queriam (não era por vinte centavos), mas o que não queriam sim. O catalisador foi a Copa das Confederações.

Os protestos tiraram o sono da elite, dos políticos, dos especuladores, dos que se acham donos do Brasil. E eles entenderam o recado e o risco que as ruas representavam.

Nas manifestações com pauta difusa, já existia o germe desse protofascismo que vivemos em 2019. Brancos enrolados em bandeiras verde e amarelo manifestando sua tara por fardas e entregando os pivetes pretos da periferia aos policiais (infiltrados ou não). Carreiristas descarados usando grupos do Facebook para mentir, canalizar a revolta e fazer sua cavaçãozinha (O WhatsApp ainda não existia). A grande mídia criminalizando protestos e sendo porta-voz dos cidadãos de bem. E os velhos bandidos de sempre fabricando a ilusão da nova política.

Os governos, de esquerda e de direita, mandaram descer o cacete. Tiro, porrada e bomba, como fizeram antes e como fazem até hoje.

Mas nesse Brasil de 2013 também estava a semente do que poderia ter sido e ainda pode. Do enfrentamento ao status quo, do acampamento no parque do Cocó em Fortaleza, das manifestações no Makro, em frente ao Palácio da Abolição, na Serrinha. Um movimento pra negar a barbárie e quebrar a lógica do fim do mundo para onde o capitalismo nos encaminha.

E foi nesse clima que o Dicionário Involucionário saiu. Sociologia poética. Léxico fora da ordem.

Hoje, para compreender a involução que estamos vivendo, é fundamental revisitar, ainda mais de forma divertida e prazerosa, aqueles dias (e noites). (Re)ler os verbetes escritos no calor da hora. Literatura, arte, contestação, filosofia, rebeldia. Escrita automática, sarcástica e humana.

Debord escreveu o Sociedade do Espetáculo com com 221 aforismos. O Dicionário tem 188 verbetes. Em comum a denúncia do espetáculo e sua cacofonia que vai nos engolindo, cegando, embrutecendo, sufocando. “O espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas, mediatizada por imagens”.

Para romper com essa lógica, todas as armas são boas: pedras, noites, poemas… E dicionários. (Paráfrase do Leminski).

Então, mais uma arma para ajudar a enfrentar as milícias (virtuais ou não), o exército de robôs e de imbecis robotizados que odeiam a história, a filosofia, a arte, o pensamento. Que perseguem professores, sindicalistas, artistas, jornalistas e qualquer um(a) que não se submeta ao seu circo de horrores e bobagens perversas.

A jornalista Eliane Brum escreveu que “Os perversos corromperam a palavra ... Só por isso podem dizer que o Brasil está ameaçado pelo ‘comunismo’ ou que o nazismo é de 'esquerda’ ou que o aquecimento global é um 'complô marxista’...Precisamos voltar a encarnar as palavras. Ou enlouqueceremos todos. A criação do comum começa pela linguagem”. O Dicionário Involucionário sai novamente então em um momento apropriado.

Mayakovski escreveu que a cavalaria do sarcasmo era sua arma predileta. Ela continua temível. Faça bom uso.

12 fevereiro, 2021

Pelos bares da vida…

 

Placa na estrada de Ubajara com os dizeres "Bar Recanto Zé Maria dos Patos"


Preso em casa não só pela pandemia, mas pela irresponsabilidade criminosa de Bolsonaro e cupinchas, que deixaram a desgraceira chegar aonde chegou, começo a pensar nos bares da vida. Os de ontem e os de hoje. E resolvo fazer esta croniqueta, pessoal e intransferível, para relembrar alguns dos locais embriagadores por onde passei.


Como toda boa peregrinação etílica, esta segue ao léu e aos emboleos, sem ordem cronológica definida e nem hora certa pra acabar. Com certeza vou esquecer de muitos, aos quais prometo voltar para tomar mais uma(s).

E antes um aviso: sou fã incondicional dos botecos do tipo copo sujo e do tira gosto “comeu morreu”. Assim, minhas escusas prévias aos paladares refinados e sensibilidades delicadas.


Croa Grande - Barraca do Padim





Croa (abreviação de Coroa) Grande é um povoado cearense que fica às margens do Rio Acaraú. Da última vez que lá estive, o que deve ter mais ou menos uns 10 anos, a vila contava com uma população que não passava de 150 pessoas. É (ou era) um daqueles lugares onde se dorme com portas abertas, qualquer estranho é alvo da curiosidade dos locais e a vida ainda se pauta pelo ritmo da natureza.

Só tinha dois estabelecimentos comerciais: um bar e mercearia de um sujeito que não lembro o nome e a Barraca, de praia, do João Ivo (o Padim). Figura das mais divertidas e acolhedoras, mantinha uma rede de tucum armada na varanda da barraca e quem chegasse primeiro se aboletava.

Cachaça, cerveja, conhaque (Dreher e São João da Barra), tira gosto de sururu, caldo de siri, peixe frito etc. Tudo feito na hora. Uma parte na barraca, outra em sua casa, preparados por sua esposa, dona Maria, ou por ele mesmo. O mar e a gamboa, a poucos passos. Ótimo refrigério pra curar a ressaca ou matar o calor.

Fiquei amigo e já da segunda vez em que fui, eu mesmo anotava em um caderno minha conta. No final do dia, quem estivesse menos “de fogueira”, eu, ele, ou outro freguês, somava.



Ubajara - Bar Recanto Zé Maria dos Patos

Placa dizendo "Bar Recanto Zé Maria dos Patos"


Estava de férias em Ubajara (CE) e no dia em que cheguei, a caminho do Parque Nacional, fui atraído pela placa pitoresca na beira da estrada. Não tive dúvidas: peguei a estradinha ao lado da dita cuja e já fui conversando com a namorada sobre a gelada que tomaríamos, talvez com um bom tira-gosto de pato. Desilusão! No final da estrada, nada de bar e menos ainda de pato. Apenas uma casa humilde e fechada com uns pintos magrelos ciscando no terreiro. Bati palmas, chamei. Nada! Mistérios…

Conjunto Ceará (Makulelê, Bar do Nogueira e Antoim da Burra)


O Conjunto Ceará, bairro de Fortaleza, é um celeiro de artistas e boêmios. Cito aqui três bares, todos na ativa, mas há inúmeros.

O Makulelê, antigo Shangri-lá, fica no Polo Cultural. Faz parte de uma história de lutas e resistência no bairro. Remanescente ainda do período da administração popular de Maria Luíza Fontenelle, foi palco de saraus, shows inesquecíveis, namoros, noites agradáveis e madrugadas ébrias. Em uma delas, como não havia mais o que comer no bar e a fome era grande, ficamos esperando até passar o padeiro do bairro, aí por umas 5h30 da manhã, para aplacar o estômago.

Bar do Nogueira – o melhor espetinho do Conjunto. O Nogueira é mais um Clube do Bolinha do que propriamente um bar. Nos finais de semana ou feriados junta uma seleta clientela de marmanjos. Os tiras gostos, cujos ingredientes muitas vezes os fregueses trazem, são preparados no local pelo próprio Nogueira ou já vêm prontos. Pratos principais: a amizade e a tradicional molecagem cearense. Mas também rola fava, churrasco, feijão verde, porco ao molho, curimatã... 

Aos domingos, cenas assim são comuns: por volta de 13h, um menino chega na porta e grita a um dos clientes – “pai, a mãe tá esperando o senhor com a mistura do almoço até agora!” Vixe! E lá vai o desnaturado marido comprar outra mistura pois a primeira ficou, junto com cervas e canas, no bucho dos confrades. 

Rotina: quase todo final de semana, alguém trava uma peleja para ir embora porque algum espírito “malino” escondeu seus chinelos. Ou a chave do carro. Ou ambos.

Nogueira, dono do bar, em frente a uma churrasqueira com uma faca na mão



Antoim da Burra ou simplesmente “Da Burra” - Point dos sinuqueiros e da rapaziada do carteado. Se o Rui Chapéu estivesse vivo, com certeza estaria lá em corpo. Em espírito com certeza está. Bom atendimento, simpatia e tranquilidade são as marcas registradas. Exceto quando tem jogo do Ceará e Fortaleza. Aí colocam uma TV, quase um mini telão no bar, e a gritaria é infernal. Após o jogo, tudo segue em boa paz.

Parque Santa Rosa - Bar Sindicato dos Cornos

Parte da parede do bar com uma pintura artesenal e os dizeres "bar Sindicato dos " abaixo, o desenho de uma cabeça de boi


O Santa Rosa, também em Fortaleza, é um bairro da Região Sul da cidade. Os nomes das ruas são extremamente poéticos. O honorável Sindicato dos Cornos, por exemplo, fica na rua Tulipa Negra.
Tem uma clientela fixa, cuja maioria mora nos arredores. Alguns na própria rua como, é o caso do famoso Gilberto Cancão e do Sérgio. O tira gosto vem em bacia de alumínio e se você estiver liso, nunca falta um litro em uma das mesas onde sempre cabe mais um. O João Corno, dono, garçom e cozinheiro, é de uma gentileza e bom humor a toda prova. Se alguém tem um comportamento indevido, ele dá uma suspensão: o elemento fica determinado período sem poder frequentar o bar.
Desnecessário dizer que a cornagem é o assunto principal. Locais como o Sindicato, ainda que indiretamente, ajudam no combate ao machismo e à violência contra a mulher.


São Luís (Cachaçaria do Batista e Bar do Corintiano)


Cachaçaria do Batista  - em 2018 estive em São Luís (MA) e logo no primeiro dia, meu amigo que bancava o cicerone me levou pelo Centro Histórico até a Cachaçaria do Batista. Como escrevi em outra crônica, a Cachaçaria fica pros lados do Convento das Mercês, em algum beco ou travessa. Creio ter visto mais de 100 variedades de cachaça. Pense em alguma folha, fruta ou raiz que possa ser misturada com o destilado e você encontra. Cachaça de pitomba, cachaça de gengibre, cachaça de banana... Aí se perde a conta. Ele é muy cerimonioso. Na época em que fui, acompanhado por um amigo jornalista que o conhece de há muito, nem foto permitiu. Melhor. Leva-se só a lembrança.

Bar do Corintiano – O Corintiano fica na Feira, que é um grande armazém de secos e molhados. Além disso, serve comida, bebida, artesanato, diversão… E diferente de outros mercados que conheci, fica aberto durante parte da noite. Não passei uma única vez no Corintiano para não encontrar o balcão lotado, todo mundo rindo e bebendo em boa paz. Um alvoroço. As bebidas do maestro têm títulos autoexplicativos e prometedores: “Fogosinha”, “Fogozada”, “Gogozada” e “Fura Ferro”. Recomendo todas moderadamente e com a devida e prévia libação. Laroyê!

Garrafas de tiquira, fogozada etc



Benfica (Pitombeira e Bar do Panelada)

Morei por anos no Benfica, outro bairro de Fortaleza e assisti a uma boa quantidade de bares serem abertos, fechados e reabertos. Alguns desses são/foram antológicos como o Bar do Ray, Chaguinha e Cantinho Acadêmico (na ativa). Aqui, vou me ater a dois somente.

Pitombeira – o típico boteco de estudantes lisos. Cerveja barata, mesas na calçada, meiota no preço e PF. Aí pela primeira década do século,  sempre tinha alguém se esgoelando com um violão (ou dois). Depois começou a praga do forró de plástico e o Marcos e a Marlene, os donos, seguiram o (des)gosto da clientela. Parte significativa dos moradores(as) de Fortaleza deve ter passado pelas mesas de plástico do Pitombeira, ainda mais em época de pré e carnaval. Recentemente, acho que anda meio deserto devido à pandemia e aos concorrentes localizados do outro lado da Av. 13 de Maio, que adotaram o seu jeito de ser.

Foto de uma árvore (pitombeira) que tem em frente ao bar



Bar do Panelada – o Panelada era só para iniciados. Constituía-se em um trailer caindo aos pedaços que ficava nas margens do Canal do Jardim América e ao qual se chegava passando por uma passarela de zinco com armação de ferro estendida sobre o canal e tão decrépita que, ao cruzar, você tinha a sensação do banho iminente. O dono (Panelada) era praticante de alguma arte marcial desconhecida. Bombado, de camiseta e faixa amarrada na cabeça, era aquele tipo de sujeito que lhe mata rindo. 

Certa vez levei uma amiga para apreciar o romântico pôr do sol à beira do canal. Ela na cerveja, eu na cachaça. No quesito de tira gosto, só existiam duas opções: a primeira já se adivinha e a segunda era baião de dois com peixe assado na brasa. Pedimos baião. Quando veio, comecei a pilhéria de que o Panelada pescava os carás que servia ali mesmo, no canal. Ele endossou jurando de pés juntos. Minha amiga cuspiu o que estava mastigando, pegou a bolsa e nem deu tchau. Se ela estiver lendo isso, explico que os carás eram limpinhos. Vinham do Mercado São Sebastião.


Iparana - Barraca do Chico da Mundola


Iparana é um bairro de Caucaia. Praia com falésias e água limpa. Tem muitos bares e barracas. Minha preferida é a barraca do seu Chico da Mundola. Situada sobre uma falésia, tem pequenas cobertas de palha sobre as mesas e uma área central, do tipo alpendre. Local simples e acolhedor. Peixe fresco, lagosta, baião de dois, cerva gelada e pinga. A comida é preparada na hora: caseira, simples e gostosa. O atendimento também é ótimo, feito pelo seu Chico e pelo Baim, seu filho. O preço é justo e a visão do mar, de cima da falésia, não tem preço. Local bom e discreto para levar o novo xodó ou um velho amor.


BH (Bar do Nonô, Onhas do Jequi)


Belo Horizonte, Belzonte ou só BH tem a fama de ser a cidade com o maior número de bares do Brasil. Não descreio. Aqui, só cabem dois.

Bar do Nonô – o Nonô já virou uma instituição. Fica no Centro de BH, na avenida Amazonas, com entrada pela rua Tupis. Conheci no início dos anos 90 após um acampamento em Barão de Cocais, do qual voltei em pandarecos. Ia trabalhar no dia seguinte e um dos parceiros sugeriu tomar um “fortificante” no Nonô. Caldo de mocotó em caneca com ovos de codorna crus e cheiro verde. Acompanha a cerveja preta Caracu. Antes do caldo, uma abrideira de Januária. Virei freguês. Em 2019 estive novamente na cidade e de todos os bares que conheci em meados dos anos 90, o único que permanece aberto é o Nonô. Que tenha vida longa e que a receita do caldo nunca se perca.

Onhas do Jequi – De saudosa memória, e não só para mim, o Onhas era um boteco com ar hippie, ali pros lados da Praça da Liberdade. O nome e a temática eram alusivas ao Vale do Jequitinhonha, a região mais nordestina das Gerais. Ia com uma turma de amigos mineiros(as) e ouvíamos, sem ter de pedir, Ednardo, Belchior… Tudo regado a muita cana, namoros ocasionais e volta pra casa em corujões. Nem conto às vezes que peguei o ônibus errado e fui acordado pelo cobrador no final da linha de não sei onde. Mas pagava a pena. Fim de semana seguinte, quando os trocados davam, lá estávamos nós de novo.


Guaramiranga (Bar do Odilon)


Carnaval, começo deste milênio (ou final do milênio passado). Acontece o Primeiro Festival da Neblina, que depois virou o Festival de Jazz e Blues de Guaramiranga. Nos primeiros anos, ia muita juventude alternativa (e sem grana). Barracas armadas pelas ruas da cidade, no campo de futebol, nos quintais e até na quadra.  Artistas, alguns intelectuais, estudantes, a malucada de BR... Desde os primeiros eventos, o point dessa turma era o Bar do Odilon. Localizado na rua principal,  foi o verdadeiro centro cultural dos primeiros anos do Festival. Novas amizades, velhos amigos se encontrando, som alternativo de todo tipo e muita, muita cachaça: com pitomba, com beijo, com chuva, com churrasco ou pura mesmo. Na sinuca, quem perdesse passava por baixo da mesa.
O dono, seu Odilon, atendia a todos com paciência de Jó, ajudado por um dos filhos (Orleans), o genro e a filha. No carnaval, o bar fechava  por volta de 5h da matina e abria às 10. Seguramente eu passava mais tempo no Odilon do que na minha barraca ou vendo os shows ou indo de pau de arara pras cachoeiras. 
Ei Orleans, bota mais uma odilombra aqui, meu chapa! E traz duas fichas de sinuca...


Escrita entre o último domingo de janeiro e a sexta-feira de carnaval, 12 de fevereiro do ano da (des)graça de 2021.


09 fevereiro, 2021

A era digital está virando uma nova idade das trevas

 A máscara da economia digital adotada pelo capitalismo em sua fase neoliberal está se mostrando mais selvagem que as versões anteriores. Em vez de caminharmos para uma era da informação, prosperidade e esclarecimento, estamos regredindo à idade das trevas.

Artigo também publicado no portal O Povo Online/Blog do Eliomar em 09/02/21


Dois autores essenciais para pensar o mundo de hoje e para onde iremos amanhã, são Cédric Durand, autor de “Tecnofeudalismo: crítica da economia digital”  e Naomi Klein, que escreveu “A Doutrina Do Choque. A Ascensão Do Capitalismo Do Desastre”.

Durand, cujo livro ainda não tem tradução para o português, aborda a ideia de que com as novas tecnologias, o capitalismo se renovou regredindo. O Big Data e as Big Techs (Google, Amazon, Facebook, Uber...) não tornaram melhor a vida das pessoas, mas estão criando verdadeiros feudos e tornando impossível a sobrevivência econômica  sem o uso das grandes plataformas onde predominam o monopólio, a vigilância e a captura de dados em um processo que se autorreforça pois seus serviços são cada vez mais indispensáveis.

“No seio do mercado, havia uma monopolização, por parte do capitalismo, dos meios de produção, mas estes meios eram plurais. Os trabalhadores precisavam encontrar emprego e, de certo modo, podiam escolher o posto de trabalho. Existia uma forma de circulação que dava lugar à concorrência. Nesta economia digital, neste tecnofeudalismo, os indivíduos e também as empresas aderem às plataformas digitais que centralizam uma série de elementos que lhes são indispensáveis para existir economicamente na sociedade contemporânea. Trata-se do Big Data, das bases de dados, dos algoritmos que permitem os processos”.

Já Klein mostrou como o capitalismo usa graves crises, muitas das quais provocadas por ele mesmo, para aplicar medidas desumanas e até genocidas, com investidores privados se apropriando de bens e recursos públicos e depois transformando essas reformas em mudanças permanentes.

Em  meados do ano passado, ela publicou o artigo “Corporações tentam acelerar distopia tech” revelando como os gigantes do Vale do Silício estão usando a pandemia Covid-19 para aumentar seus lucros e redesenhar o mundo.

“Muito mais high-tech do que qualquer coisa que vimos nos desastres anteriores, o futuro que está surgindo à medida que os cadáveres ainda se acumulam está tratando nossas últimas semanas de isolamento não como uma necessidade dolorosa para salvar vidas, mas como um laboratório vivo para um futuro permanente — e altamente lucrativo — sem contato físico.

Esse é um futuro em que, para os privilegiados, quase tudo é entregue em casa, virtualmente por meio de tecnologia de streaming e nuvem, ou fisicamente por um veículo sem motorista ou por um drone, e então ‘compartilhados’ na tela de uma plataforma mediada. É um futuro que emprega muito menos professores, médicos e motoristas...É um futuro que alega ser executado por ‘inteligência artificial’, mas na verdade é mantido em funcionamento por dezenas de milhões de trabalhadores anônimos escondidos em armazéns, centros de dados e moderação de conteúdos, fábricas escravizantes de eletrônicos, minas de lítio, fazendas industriais, frigoríficos e prisões, onde são deixados desprotegidos de doenças e hiperexploração. É um futuro em que todos os nossos movimentos, todas as nossas palavras, todos os nossos relacionamentos são localizáveis, rastreáveis e passíveis de terem seus dados minados por colaborações inéditas entre os governos e as empresas gigantes de tecnologia”.

Esse futuro apontado por Durand e Klein é sombrio. Moldado por uma aliança espúria entre grandes empresas de tecnologia, corporações financeiras e governos, aponta para a instauração de monopólios, dependência, manipulação política, privilégios e predação global.
Está calcado na disseminação de mentiras (fake news), absurdas teorias da conspiração, como a de que vacinas são maléficas, e meias-verdades usadas para confundir em vez de informar.
Pressupõe, como já acontece em muitos lugares, uma vigilância constante e o uso de nossos dados por empresas privadas para fins comerciais ou para detectar e influenciar as tendências políticas e os comportamentos sociais, como ocorreu nas eleições de Trump e Bolsonaro.
Ao contrário dos que muitos afirmam, as tecnologias não são neutras e precisam ser reguladas, tendo em conta os direitos e o bem-estar da maioria.

A máscara  da economia digital adotada pelo capitalismo em sua fase neoliberal está se mostrando mais selvagem que as versões anteriores. Em vez de caminharmos para uma era da informação, prosperidade e esclarecimento, estamos regredindo à idade das trevas.

Links:
A hipótese do Tecnofeudalismo - https://bityli.com/c65OL
Corporações tentam acelerar distopia tech- https://bityli.com/NYevU

29 outubro, 2020

E a terra, que não é plana, vai voltar a tremer

Auto de fé em Portugal (gravura)

 


 

 




Artigo também publicado no portal O Povo Online/Blog do Eliomar em 30/10/2020

“Depois do terremoto que havia destruído três quartos de Lisboa, os sábios do país não tinham encontrado um meio mais eficaz para prevenir uma ruína total senão dar ao povo um belo auto de fé; fora decidido pela universidade de Coimbra que o espetáculo de algumas pessoas queimadas em fogo brando, em grande cerimônia, é um segredo infalível para impedir a terra de tremer.


Tinha-se, em consequência, prendido um biscainho convencido de ter desposado a sua comadre, e dois portugueses que, comendo frango, tinham-lhe retirado o toucinho; vieram prender depois do jantar o dr. Pangloss e o seu discípulo Cândido, um por ter falado e o outro por ter escutado com ar de aprovação...Cândido foi surrado em cadência, enquanto se cantava; o biscainho e os dois homens que não quiseram comer toucinho foram queimados, e Pangloss foi enforcado, embora não fosse o costume. No mesmo dia a terra tremeu com um estrépito espantoso.”


O trecho acima do conto de Voltaire, “Cândido ou o otimismo” é uma das melhores analogias que se pode encontrar para a reforma administrativa, enviada ao Congresso pelo presidente de extrema direita, Jair Bolsonaro.


Ele anunciou a reforma no mesmo dia em que a economia tremeu com o anúncio da queda de 9,7 do PIB no segundo trimestre desde ano. Um auto de fé para acalmar o deus mercado, essa entidade onipotente e incorpórea que governa os rumos da economia e da política e à qual Bolsonaro, Paulo Guedes e outros prestam vassalagem.


A reforma, que irá ao Congresso em fatias,  pretende acabar com  a estabilidade do servidor público, prorrogar estágio probatório, acabar com a promoções e progressões por tempo de serviço, reduzir concursos, salários e carreiras e até juntar órgãos públicos e empresas privadas no mesmo espaço, com as empresas se beneficiando do que é público. No entanto, a reforma não afeta militares, juízes, parlamentares e nem membros do Ministério Público. Alguns juízes e membros do Ministério Público conseguem ter rendimentos de mais de R$ 100 mil por mês. Já no caso dos militares, o Ministério da Defesa tem a segunda maior folha de pagamento entre todos os ministérios, inclusive o da Educação. E para fazer o que mesmo? Enquanto isso, a grande maioria dos funcionários públicos brasileiros ganha pouco e mal. No caso dos servidores das prefeituras, de cada 100 funcionários, 61  recebem mensalmente entre um salário mínimo e dois salários e meio.


O governo diz e a mídia repercute cegamente que o país não tem dinheiro para pagar os servidores. Mentira. Quase metade do orçamento da União é consumido com juros e amortizações da dívida pública. Uma dívida que ninguém sabe quem fez e que nenhum governante quer auditar. A dívida é impagável. 


Recentemente Bolsonaro tentou, via decreto, começar a privatização do SUS a partir dos postos de saúde. Apanhou e recuou. Daqui há pouco tenta de novo.


O Brasil está assistindo a volta da fome, da queda em todos os indicadores sociais, a destruição ecocida do meio ambiente e um verdadeiro genocídio com mais de 156 mil mortos vítimas da Covid-19. Boa parte dessas mortes poderia ser evitada se o presidente e seus ministros agissem com o mínimo de responsabilidade.


O auto de fé da reforma administrativa visa acabar com o que resta da função social do Estado e levar milhões à fome, doença e a morte para garantir por mais alguns anos os lucros de um punhados de banqueiros e especuladores parasitas. Não vai dar certo.


E a terra, que não é plana, vai voltar a tremer.



Links com fontes: 

https://economia.uol.com.br/noticias/deutsche-welle/2020/09/03/servidor-ganha-demais-na-verdade-funcionalismo-e-desigual-como-o-brasil.htm

https://auditoriacidada.org.br/conteudo/grafico-do-orcamento-federal-2019-2/

https://auditoriacidada.org.br/conteudo/faixa-livre-fattorelli-pec-32-e-a-destruicao-do-estado-social-da-constituicao-de-88/



24 setembro, 2020

Mostra nacional de contadores de histórias tem lançamento de autora cearense

 



 

De 24 a 27 de setembro, ocorre o encontro de Narradores: nas terras do Cariri, Mostra Nacional de Contadores de Histórias. Com mais de 50 participantes de três países, o destaque fica para o lançamento do ebook infantil “A lagartixa Lulu”, da cearense e professora da Urca, Aline Bussons e com ilustrações de Ricardo Campos. Neste domingo às 15h40.  O lançamento será pelo site da mostra encurtador.com.br/ITVW5.



Aline Bussons
é professora do departamento de Línguas e Literaturas da Urca, atuando nas áreas de linguística e Língua Portuguesa. Tenho seis livros publicados (Raulzito, o jacaré - independente), Uma baleia muito esperta (Ed Demócrito Rocha), Agá (Ed Demócrito Rocha), Historia de Sopa, Colher e Gato (Ed. Demócrito Rocha), O hipopótamo que tinha ideias demais (Vencedor do Prêmio Nacional de literatura infanto-juvenil CEPE e publicado pela CEPE editora), A gata Glória e Dona Bruna (Vencedor do prêmio latino-americano Crianças do Mercosul e publicado pela editora Comunicarte - Córdoba – Argentina).




Ricardo Campos
nasceu em juazeiro do norte em março de 1976. Desenha desde criança e é autodidata. Não tem formação acadêmica, apesar de ter cursado história e artes visuais, não concluiu os cursos. Fez três exposições individuais e participou de dezenas de coletivas. Hoje se dedica principalmente ao "muralismo" e ao trabalho no seu ateliê.




23 julho, 2020

O que será o amanhã? A economia e a vida pós-COVID-19 (Parte IV)

Planeta terra partido

Em mais um texto da série “o coronavírus e a economia”, o professor Aécio Oliveira (UFC) continua a reflexão sobre como evitar a destruição do planeta e a nossa própria autodestruição enquanto espécie. Ele afirma “O fato de estarmos vivenciando um momento histórico inédito de múltiplas crises – econômica, política, social e sanitária – não deve nos inibir de pensarmos possibilidades e menos ainda vislumbrar outras formas societárias para a humanidade.”. E indaga"  A nova era – antropoceno ou capitaloceno – sinaliza para mais pandemias e desastres climáticos. Ou sinaliza para a extinção da raça humana?"  Confira.

O hoje

Quais as verdadeiras causas das múltiplas crises hoje vivenciadas? A economia de há muito não funciona como preceitua a chamada ciência econômica, o Estado dedica-se apenas a intervir na economia para beneficiar corporações e credores da dívida pública, a democracia representativa está em cheque e interessa apenas à minoria, o aparelho da repressão institucional se amplia no sentido de estabelecer uma espécie de ditadura democrática... Essas facetas são expressões concretas da “contradição em processo” que é o sistema do capital, um sistema que gera crises permanentes e recorrentes para não serem resolvidas. Mas, a que objetivos atendem essas crises permanentes e recorrentes?


Primeiro, evitar que se pensem alternativas inclusivas que melhorem as condições de vida de todas as pessoas. As crises desviam a atenção do problema da elevada concentração de riqueza, ajudando assim a legitimar as desigualdades. Em segundo lugar, impor medidas para combatê-las que incluem a eliminação de direitos individuais e sociais. A demolição do Estado de bem-estar social é justificada pela necessidade da redução de gastos públicos em geral: a educação, a saúde e a seguridade social são as primeiras ‘vítimas’. São as chamadas medidas de ajuste para garantir a remuneração dos credores das dívidas públicas. Em terceiro, mas não em último lugar, atender à desregulamentação de proteção dos ecossistemas.

Ao mesmo tempo, a normalidade* das sociedades modernas introjetam nas pessoas um estranho sentimento de segurança. Mesmo quando alguma insegurança se insurge, as mídias acionam mecanismos para que seja minimizada, promovendo a venda de ‘produtos de segurança’: planos privados de saúde, apólices de seguros de vida, do carro, da residência; serviços de empresas de segurança, terapias psicológicas, academias de ginástica... Logo que se instala um surto viral, desfaz-se essa quimera e desmorona-se a segurança. Os mecanismos criados pelas mídias perdem sua eficácia e se restringem a lembretes do tipo: <<anuncie na crise, senão a crise fará com que sua marca seja esquecida>>.


O novo coronavírus derrubou a economia logo no primeiro tempo e desnudou o neoliberalismo praticado nos últimos quarenta anos. A pandemia agravou a situação de crise da economia global, desvelou sua incapacidade de oferecer melhores condições de vida à população mundial e mostrou as fragilidades dos serviços públicos de saúde para seu enfrentamento em quase todos os países.


A atual pandemia tem a ‘virtude’ de introduzir mudanças inusitadas no comportamento das pessoas. O isolamento social (#FiqueEmCasa) possibilita tempo para alguma reflexão, para ler um livro e passar mais tempo com os familiares. Possibilita consumir menos e conter o vício de passar uma parte do tempo de vida em shoppings, olhando para o que está à venda, e lembra que coisas importantes podem ser obtidas por outros meios que não pela compra. Também abala a ideia conservadora de que não há alternativa ao modo de vida (imposto) das sociedades modernas. Mesmo tendo sido excluídas, as alternativas acabam emergindo no cenário pelas ‘portas dos fundos’, abertas pelas crises econômica, política e sanitária, ou pelas ‘portas’ abertas pelos desastres ambientais ou pelos colapsos financeiros. As alternativas emergem pelas vias do pior possível.


Sabe-se também que a pandemia (todo o povo) não é ‘democrática’. Mesmo assim, a etimologia da palavra sugere que todas as pessoas estão vulneráveis. Contraditoriamente, ser socialmente solidário é estar socialmente isolado. E quem não tiver condições de vida para tal, se vê com elevada probabilidade de ser ‘sorteado’ e fazer parte da fila por atendimento médico-hospitalar.


Uma parte significativa da economia foi obrigada a parar em todos os países. As consequências negativas recaíram principalmente sobre aqueles e aquelas que vivem da venda de sua força de trabalho ou de algum negócio que funciona como fonte de renda. Mas, visivelmente, diminuiu a poluição da atmosférica e da água de superfície. Na ausência do homem, os canais aquáticos de Veneza voltaram a ser frequentados por outras espécies; as tartaruga voltam a se ‘banhar’ na Baía de Guanabara; as emissões de GEE diminuíram... Parece que o coronavírus sinaliza que a única via para evitar o colapso ecológico global é a destruição do modo de produção e de vida das sociedades modernas, junto com destruição massiva de vidas humanas.

China e Cuba, por exemplo, acionaram métodos de vigilância e controle da pandemia bastante rigorosos. As medidas foram eficazes. Outros países, mais preocupados com a economia do que com a vida, se apressaram em liberar as atividades econômicas. Os resultados não foram melhores.

Uma pandemia com essa dimensão não cria, mas sim torna visível as ‘sombras’ já existentes. Por exemplo, a extrema vulnerabilidade ao vírus de milhões de refugiados e imigrantes detidos nos campos de internamento. Na Grécia há mais de 38.000 migrantes em espaços para pouco mais de 6.000 pessoas. Os internados não podem manter isolamento social. O mesmo ocorre nas favelas e periferias das grandes cidades brasileiras e com milhões (ou bilhões) que compõem a base da pirâmide das desigualdades sociais.

O coronavírus alterou profundamente o modo de vida das sociedades modernas. Instaurou momentos atípicos que certamente têm ajudado muitos de nós a exercitar outras reflexões, agora fora da zona de conforto a que estávamos acostumados antes da pandemia. Pouquíssimos das atuais gerações vivenciaram uma situação de confinamento semelhante. Agora temos a chance de refletir, pesquisar e discutir sobre como o mundo está, e como poderá ficar no pós Covid-19.

O fato de estarmos vivenciando um momento histórico inédito de múltiplas crises – econômica, política, social e sanitária – não deve nos inibir de pensarmos possibilidades e menos ainda vislumbrar outras formas societárias para a humanidade. Obviamente, possibilidades que sejam pensadas como processos que considerem as relações vitais entre Natureza, sociedade e economia. Alguns pontos podem ser sugeridos para reflexão. As causas da pandemia, os efeitos diferenciados sobre a sociedade, a segurança alimentar e a capacidade de atendimento dos sistemas de saúde, os impactos econômicos e a reorientação da economia são alguns pontos dentre muitos outros.

No contexto de profundas desigualdades que envolvem a maioria dos países, as consequências sempre recaem sobre os segmentos sociais mais vulneráveis que ocupam a base da pirâmide social. O novo coronavírus desnudou essas desigualdades, mesmo nos países com renda per capita elevada, e mais ainda naqueles que alimentam a ilusão de que chegarão ao paraíso do chamado “primeiro mundo”.

Mesmo assim, o debate mais sério tem sido evitado. O crescimento econômico ilimitado continua sendo a pauta, embora seja incompatível à vida a longo prazo. E que, para atender essa pauta, a maioria da sociedade é tratada como coisas, ou na melhor, se vê coagida à condição de servos da produção, do comércio e dos serviços para que tenham acesso aos meios de vida biológicos e sociais. Em geral, servos e senhores da modernidade vivem o hoje como se não houvesse o amanhã. Reproduzem um sociometabolismo que consome organismos humanos como um “fator da produção” qualquer, descartável, para o enriquecimento material de poucos.

Há uma pauta volumosa de interesse geral que envolve questões relacionadas ao neoliberalismo, à mercantilização da vida, às cadeias produtivas mundiais das mercadorias, à precarização do trabalho e das condições de vida de muitos. Agora, com a pandemia, as questões que falam da intensificação da exploração, como o ‘retorno’ do “trabalho em domicílio” do século XIX com a roupagem das TIC. Outras no mesmo nível de importância, relacionadas às economias e tecnologias alternativas, o combate às discriminações de gênero e raça e das minorias, ao lado da assistência e cuidados pessoais. São pautas que têm ganho muita visibilidade nesses tempos e que certamente alcançarão maior expressão no pós pandemia.

A proteção econômica do Estado – ajuda emergencial no Brasil, ou renda básica em outros países – daqueles e daquelas que perderam suas fontes de renda certamente não ocorreria dentro da normalidade ultraliberal. O choque causado pela pandemia poderá trazer alguma mudança de comportamento individual e social, caso melhore a percepção de muitos do que seja essencial. Talvez se abram janelas para que se perceba se as coisas voltarão à normalidade anterior ou se outra sociabilidade começará a se esboçar. Talvez as práticas dos gestores públicos e o poder exercido sobre a sociedade não sejam as mesmas nem o mesmo. A realidade quando ‘fala’ contribui para ampliar a compreensão de que, por exemplo, o novo coronavírus e a nuvem de gafanhotos que invade a América do Sul resultem das agressões feitas aos habitats pelo avanço da transformação da Natureza em mercadoria para fazer crescer a economia. A compreensão de que a destruição da biodiversidade provoca a eliminação de hospedeiros e de predadores.

O fato é que devemos estar mais conscientes ainda de que esses debates já estão postos e que definirão a agenda de discussões dos próximos anos, junto com a intensificação da retomada das pautas da mudança climática.

Com ou sem pandemia, após décadas de agressões à Natureza, as economias das sociedades modernas – de mercado ou de comando central – apresentam oscilações em suas trajetórias, mesmo que se perceba uma tendência geral de expansão. Esta tendência cíclica é determinada por leis econômicas que organizam a estrutura e o funcionamento da economia moderna. A “anarquia da produção”, que decorre de decisões orientadas por sinais de mercado e que são tomadas livre e isoladamente pelos agentes econômicos. A elevação da “composição técnico-orgânica do capital”, que possibilita a substituição do homem pela máquina. As inovações tecnológicas sem fim, que simplificam o trabalho e desvalorizam o trabalhador e sua formação, e que também desqualificam as áreas do conhecimento do campo das humanas. E por último, pela imposição da lei da produtividade crescente para reduzir custos e mais bem preparar para os embates da livre concorrência entre as empresas e as corporações.

Essas são as leis econômicas que caracterizam a normalidade da economia das sociedades modernas e que desencadeiam a “tendência decrescente da taxa de lucro” sobre o capital investido. Por isso é que, desde os anos de 1980, a esfera financeira ganha a condição de destino especial para um enorme volume de excedentes gerados pelas empresas que não encontram alternativas na economia real. Na esfera financeira não há limites para a expansão do dinheiro.

Assim, as crises econômicas tornam-se a regra e a perda de confiança na economia monetária é equivocadamente identificada como sua causa. A solidez do sistema financeiro-bancário se desmanchar no ar para que as causas reais permaneçam intocadas. A frustração do crescimento econômico abala a convivência entre a democracia representativa e a economia. Por essa via, insinua-se o domínio oligárquico sobre a sociedade e o enfraquecimento da esfera pública pela corrupção entranhada das estruturas institucionais e pelas pressões advindas da competição internacional. As sociedades modernas, portanto, demonstram sinais patológicos para os quais não há cura. Como resultado, agravam-se as desigualdades sociais e se ampliam as agressões à Natureza. A instabilidade social e política torna-se a regra.

Vários caminhos estão disponíveis para superar esse cenário dantesco. Mas, de alguma maneira todos esbarram nas estruturas ditas democráticas das sociedades modernas. Quando se trata de propor tecnologias sociais que minimizam os efeitos entrópicos de algum processo econômico, as pessoas mais influentes vociferam com justificativas relacionadas às economias de escala, à eficiência, à competitividade internacional. Fazer uma crítica às novas tecnologias, em virtude de seus efeitos negativos, nem pensar. Ninguém pode parar o progresso.

A realidade, no entanto, demonstra que as tecnologias terão que ser repensadas, pois as inovações tornam os processos econômicos cada vez mais ineficientes. Ao mesmo tempo, degradam matéria; contaminam o solo e a água, poluem a atmosfera e dissipam energia, em escala ampliada. Elas contribuem para uma crescente quantidade de resíduos que afetam a capacidade de suporte dos ecossistemas. O consumo desmesurado dos ecossistemas e o descarte de material humano é sua face mais cruel.

Conforme Michael Huesemann e Joyce Huesemann, em TEHNO-FIX (Capítulo 10): Contudo, as tecnologias são verdadeiros imperativos; não podem ser questionadas. Qualquer um que aceite o imperativo tecnológico para orientar suas ações desistiu, de fato, de qualquer consideração ética em sua tomada de decisão. Em vez de considerar, cuidadosamente, se uma nova tecnologia, quando completamente desenvolvida e implementada em larga escala, é útil ou inútil, construtiva ou destrutiva, inofensivo ou prejudicial, humana ou desumana, certa ou errada, boa ou má, a pessoa que acredita no imperativo tecnológico endossará e disseminará as novas tecnologias simplesmente porque elas são novas. [Tradução livre]

máquina de escrever jogada em meio a plantas



Se nada ocorrer para alterar a normalidade das sociedades modernas, a inevitável conclusão é que estaremos contribuindo para reproduzir um sistema econômico que funciona com uma lógica irracional que conduz ‘cegamente’ as ações individuais e as práticas sociais no sentido de que realizem agressões à biodiversidade, causem poluição da atmosfera, contaminem a água de superfície e dos aquíferos e influenciem o clima do Planeta. Evidentemente, os vírus deslocados são indicadores da destruição de habitats; as nuvens de gafanhotos, refletem a falta de seus predadores; a prática da utilização de agrotóxicos, antecipa a perda da fertilidade do solo; e as inúmeras dissociações e desigualdades sociais parecem confirmar que “os seres humanos não foram eficientemente projetados” (HOBSBAWM, Erik) para as sociedades modernas. O aquecimento global, as poluições, as contaminações, as pandemias, as nuvens de gafanhotos ... são prenúncios da insegurança alimentar que deverá desabar sobre expressivos segmentos da população mundial.

Estaríamos, então, diante de prenúncios de que já passou da hora de alterarmos a lógica que caracteriza o tempo histórico da modernidade? Que outra ordem econômica e social teria condições de proporcionar condições materiais de vida, culturalmente adequadas, para a diversidade da população mundial? Que desenho social e econômico pode ser apresentado?

As instituições das sociedades modernas funcionam melhor em situação de normalidade ou em situação de crise? Em qualquer situação, funcionam muito bem para poucos e muito mal para a muitos. A atual pandemia não é uma situação de exceção que claramente se contrapõe à situação de normalidade. Na verdade, apenas desnuda e acentua o que já estava posto.

Admitir que a normalidade que se instituiu há quase 250 anos é a “contradição em processo”, significa dizer que as sociedades modernas compõem um sistema-mundo em crise permanente, e não em crise passageira. As crises recorrentes são inerentes a lógica de seu funcionamento. Em suas estruturas, econômicas devem ser encontradas as causas que as provocam. Obviamente que os gestores públicos em geral sempre recorrerão, quando o fizerem, a paliativos para mitigar consequências. Mas, aqueles gestores de corte ultraliberal sempre ficarão restritos à crise financeira como causa imediata dos problemas econômicos cuja resolução se torna prioritária. Daí a justificativa dos ajustes à base de cortes de gastos nos setores das políticas sociais (saúde, educação, previdência social) e a flexibilização da legislação trabalhista. Para os gestores ultraliberais, a solução está na facilitação da vida dos empresários e investidores para que a economia cresça, mesmo que a vida de muitos seja dramaticamente piorada. Para Vilfredo Pareto, economista do bem-estar social, tal decisão não seria a melhor: a vida de poucos melhora, à custa de sacrifícios da maioria.

Muitas transições para outra sociabilidade já se iniciaram em muitos lugares. São portas e janelas que se disseminam e estão à disposição nas ‘bibliotecas’ dos povos tradicionais, na riqueza dos ensinamentos da ciência da Agroecologia e da Economia Ecológica e nas refinadas formas de organização ensinadas pela Economia Solidária. Já está posto o momento da escolha: continuar a normalidade das sociedades modernas ou resgatar a ética da vida como centralidade. A nova era – antropoceno ou capitaloceno – sinaliza para mais pandemias e desastres climáticos. Ou sinaliza para a extinção da raça humana?

Janelas para perceber outro amanhã e portas para chegar lá


Fachada de prédio com janelas e plantas cobrindo as laterais


A continuação da normalidade típica das sociedades modernas aumenta a certeza da ocorrência de colapsos ecológicos com impactos incontroláveis sobre a humanidade e as demais espécies. O amanhã pode ser delineado a partir dos efeitos decorrentes da ultrapassagem dos limites ecossistêmicas. Uma elevação da temperatura média da superfície da Terra e dos oceanos, acima de determinado nível (acima 2º C), poderá ser catastrófico. Fome e múltiplas doenças atingirão expressivos segmentos da população mundial, principalmente aqueles mais vulneráveis.

O ensaio oferecido pela atual crise pandêmico-sanitária, mesmo que previsto, é sempre um fenômeno inesperado, principalmente nas sociedades inebriadas pelo consumismo e por aqueles e aquelas enlouquecidos e enlouquecidas pela ‘síndrome’ do crescimento econômico ilimitado. Cada vez mais claro, as doenças zoonóticas decorrem da fragmentação de habitats, do desmatamento, da mudança do uso do solo, que compõem as ações antrópicas relacionadas ao cumprimento do dogma do crescimento econômico ilimitado.

As injustiças ambientais deslocam humanos; a degradação, a devastação e a destruição de habitats deslocam presas, predadores, hospedeiros e vírus. Mesmo assim, os gestores públicos dos países mais ricos – e mesmo daqueles ditos emergentes – reagem minimizando as consequências sobre a saúde e a vida das pessoas, enfatizando o crescimento da economia.

Ao mesmo tempo que dão pouca importância à vida, esses mesmos gestores acenam com estímulos e suporte financeiro a empresas e bancos para que a economia retome a trajetória do crescimento e assim mantenha o modo de vida consumista das sociedades modernas. De maneira subliminar, mas direta, entre a vida e a economia os gestores públicos e os empresariais pressionam para que a economia volte à normalidade. Por vezes, banalizam a vida com a justificativa de que a morte é inevitável; e, ao mesmo tempo, argumentam que as atividades econômicas não podem parar, pois são essenciais para garantir a vida. Frequentemente vociferam dizendo que a economia tem que ser mantida a qualquer custo.

Essa é a demonstração de que as vidas das pessoas importam, apenas quando estão a serviço da acumulação de riqueza da minoria. Parafraseando Ailton Krenak, em O amanhã não está à venda, o navio não pode ser mais importante do que tripulação.

Em 2008, o Estado prontamente providenciou cerca de 700 bilhões de dólares de ajuda aos bancos norte-americanos. Certamente, as crises simultâneas de hoje demandarão um volume muito mais expressivo de recursos. A estimativa é de um trilhão de dólares para combater os impactos da COVID-19. O fato é que a atuação do Estado foi fundamental em 2008, e será mais ainda em 2020.

Mas, fora dessa via tradicional de socorro, com medidas voltadas para a normalidade do modo de vida hegemônico, que transições poderiam ser consideradas para sair do sistema? O crescimento econômico não está funcionando e a globalização fracassou: não foi possível proporcionar condições de vida dignas para a população mundial. Esta não seria a demonstração cabal de que as soluções devem ser, prioritariamente, encontradas nos territórios e nos locais onde as pessoas habitam?

Outro mundo é possível em que as condições de vida de todos e de todas sejam melhores. Acima de tudo, outros valores teriam que ser cultivados como essenciais como alternativas para a sociabilidade prevalecente. É preciso identificar formas concretas que mostrem claramente que o modo de produção e de vida das sociedades modernas impedem que outros valores sejam apresentados como possibilidades efetivas.

Por que não seria desejável uma sociedade justa, igualitária, democrática, solidária? Por que não seria desejável uma sociedade com igualdade de oportunidades para uma vida plena, com amplo acesso aos meios que garantam o atendimento das necessidades materiais e sociais de cada uma e de todas as pessoas? Tais valores são realizáveis nas sociedades modernas?

Em países como o Brasil – e em muitos outros que jamais alcançarão o padrão de consumo médio dos países ricos –, há janelas abertas mostram caminhos a serem trilhados com ações e práticas inovadoras e eficientes. Os pontos a seguir apresentados correspondem a algumas dessas trilhas que podem contribuir para a construção de outra ‘normalidade’. Certamente, as baterias e as armas dos ativistas que assaltaram o poder no Brasil pela via do voto, irão organizar resistências para impedir que tenhamos uma sociedade igualitária, democrática, inclusiva e solidária. Mas, é preciso abrir as portas e prosseguir por algumas trilhas de possibilidades, mesmo que sejam incertas, para serem experimentadas por dentro das estruturas existentes.

De imediato, é preciso tornar a sociedade mais resiliente a futuros choques pandêmicos que certamente ainda acontecerão. Pela experiência até agora vivenciada com a COVID-19, pelo menos as parcelas mais vulneráveis da população terão que ser amparada com uma renda básica individual permanente, independentemente da situação em que se encontre no “mercado de trabalho”. Ao lado dessa garantia de renda, o Estado terá que implementar políticas para dar mais solidez ao sistema de saúde, suporte à educação em todos os níveis, à pesquisa científica e à apropriação e disseminação dos saberes ancestrais e dos povos tradicionais. Essas políticas terão que ser complementadas com a universalização dos serviços de saneamento e moradia digna. É óbvio que esse aumento de resiliência social jamais será realizado pelo setor privado; mas também é óbvio que o conjunto das políticas beneficiará este mesmo setor privado, com uma oferta de força de trabalho mais sadia.

Outro caminho para consolidar a resiliência de todas as pessoas, e de cada uma indistintamente, é aquele que aponta para a definição do que seja essencial para a saúde humana. Trata-se de bens essenciais, sobretudo voltados para uma alimentação saudável, a serem produzidos de acordo com as técnicas dos sistemas agroecológicos de base familiar, no campo e na cidade. Vale lembrar que o uso e a ocupação do chamado “solo urbano” pode ser redirecionado para que a agricultura também seja urbana.

Ao lado da definição do que seja essencial para uma alimentação saudável, há um sem número de atividades voltadas para os cuidados com o ambiente natural que podem servir para a elaboração de uma base curricular comum aos sistemas de ensino e projetos pedagógicos em todos os níveis. A proteção de nascentes, a recuperação de matas ciliares das nascentes, dos rios e riachos, o reflorestamento com espécies nativas, a estruturação de sistemas de agrofloresta como já fazem os indígenas, a recuperação de áreas degradadas, o cultivo de hortaliças, frutíferas e de fitoterápicos nas zonas urbanas e rurais etc. São alguns exemplos de atividades que favorecem à saúde e à criatividade humana.

Uma trilha fundamental a ser construída tem a ver com o desenvolvimento da ciência e sua aplicação em tecnologias carbono zero. A economia das sociedades modernas tem sua razão de ser apoiada no crescimento econômico ilimitado, um dogma que acarreta aumento do consumo de combustíveis fósseis e, portanto, da emissão de dióxido de carbono. Em termos biofísicos ou termodinâmicos, o crescimento é insustentável porque repousa na extração e degradação de bens naturais comuns a uma escala crescente. Ao mesmo tempo, assenta-se em uma matriz energética de base fóssil, cuja queima cresce junto com o consumo de outros insumos materiais que alimentam o processo econômico. As mudanças climáticas causadas por essa economia fóssil de há muito sinalizam para a necessidade de parar as emissões de CO2, metano e de outros gases de efeito estufa. O aquecimento global aumenta os riscos de encadeamento da extinção de espécies e nos aproxima de colapsos que cedo ou tarde nos incluirão na lista das extinções. A atual trajetória aumenta nossa vulnerabilidade a futuras pandemias.

Muitas das soluções disponíveis são do conhecimento da humanidade, pois resultaram de problemas reais. Como sempre, quando problemas se apresentam as soluções já existem ou estão em vias de serem concretizadas. Contudo, a nova ordem somente poderá ser concebida, e as soluções apresentadas, à medida que ocorra a apropriação crítica do conhecimento existente, com a superação da estrutura de compulsão social que respalda a acumulação de riqueza de poucos. Ou seja, quando os coletivos sociais alcançarem a condição de liberdade inerente aos “produtores associados”.

Garantir a existência biológica, social e espiritual de todos os habitantes da Terra é o único objetivo que poderá postergar a vida neste planeta. E a autoconsciência do homem, a condição necessária para que seja alcançada. Essa condição abre-lhe janelas para reconhecer que os modos de produção e de vida que têm vivenciado resultaram de processos sociais que se estruturaram historicamente. Mas, resultaram de ações humanas que levaram a profundas desigualdades sociais e a ameaças ao nosso suporte de vida. Precisamente por isso, as ações humanas podem ser outras; podem ser orientadas para um constructo social em que a radicalização da vida seja o princípio orientador. As formas sociais que venham a se configurar com outro modo de produção e de vida dependerão da compreensão das contradições que se desenvolveram ao longo da história das sociedades modernas em geral, e da sociedade capitalista em particular.

Uma leitura crítica da normalidade prevalecente permite perceber as sociedades modernas estão envoltas por uma organização econômica que cria empecilhos para uma vida plena. É uma normalidade desigual, injusta, pouco ou nada democrática, cada vez menos solidária e com a liberdade de pensar e de influenciar cada vez mais intimamente vinculada ao poder de compra.

Essas características reafirmam a necessidade da autogestão e da cooperação solidária entre homens e mulheres, com elevado respeito aos direitos da Natureza, valores que certamente contribuirão para construir uma sociedade humana e igualitária. Também, reafirmam a necessidade de reapropriação coletiva do legado cultural dos povos tradicionais que tem por base outros valores que são intimamente vinculados à postergação da vida como princípio central. Assim, para que a humanidade tenha um futuro discernível é preciso que os desgastes sofridos pela força produtiva do homem e a degradação provocada ao ambiente natural sejam interrompidos, caso não queiramos apressar nossa extinção.

Nessa mesma normalidade, as evidências climáticas no século XXI deixam mais claro que a humanidade está reproduzindo um modo de produção e de vida que privilegia a acumulação interminável de capital, a um custo social e ambiental incomensurável. As mesmas evidências marcam uma era histórica que John Merrick, no resumo que faz de Capitalism in the Web of Life de Jason W. Moore, denomina de “capitaloceno”. Pode-se acrescentar, uma ‘era’ em que o ‘ecossistema’ do capital desenvolve tecnologias voltadas para acelerar a mercantilização e a degradação da Natureza; uma ‘era’ em que os ecossistemas terão que processar a matéria degradada como se fosse sua ‘matéria-prima’ natural para assim demonstrar sua funcionalidade na reprodução do sistema do capital.

A nova ‘era’, entretanto, sugere que interação entre economia e Natureza terá que ser diferente de modo a proporcionar uma vida plena para a humanidade; de modo que o atendimento de necessidades humanas reais seja a finalidade. Com a ultrapassagem do ‘capitaloceno’, a nova sociabilidade deverá estar ancorada em outros valores e parâmetros orientados por princípios ecológicos, tendo por perspectiva uma sociedade justa e igualitária. Para tal, o redesenho das relações entre Natureza, sociedade e economia terá que expressar os princípios e leis que regem os ecossistemas.

O encontro entre saberes tradicionais e as ciências, e as tecnologias daí resultantes, afigura-se como um caminho interessante para a construção social de condições de vida saudáveis para o homem. Uma quadro de vida que proporcione um espaço seguro e justo que garanta o atendimento de necessidades individuais e sociais: água potável, soberania alimentar, universalização da educação e da saúde, energia renovável, equidade de gênero, igualdade social, resiliência coletiva, participação política efetiva, dentre outros atributos. As inovações tecnológicas teriam que privilegiar processos econômicos regenerativos, produção agroecológica de alimentos e energia de baixo carbono, sempre voltadas para a produção de comodidades passíveis de conserto e com longa durabilidade.

Nesse sentido, é importante aperfeiçoar as tecnologias que envolvam o reuso e a reciclagem de materiais, bem como as fontes renováveis de energia. As “tecnologias sociais” na produção de alimentos e de outros insumos básicos serão importantes para a ciclagem de elementos nos processos de reaproveitamento. Há vegetais que têm a propriedade de conservar a água das cisternas que recebem água do telhado das casas, como é o caso da semente da Moringa.

No entanto, esse quadro de vida congrega possibilidades que são inviabilizadas pelas estruturas que determinam o modo de produção e de vidas das sociedades modernas. São inviabilizadas porque apontam para o início da história sem fetiches da humanidade. O individualismo possessivo e exacerbado dá lugar ao “indivíduo social” (Karl Marx) como expressão de segurança e coesão social: a solidariedade como a liga da autonomia individual e os ecossistemas como a liga da vida coletiva.

O “indivíduo social” também é a expressão do fim das discriminações, das desigualdades sociais e dos patriotismos, de preconceitos, e a afirmação da consciência de que habitamos a mesma casa. O hedonismo individualista possessivo deixa de prevalecer; e o sentimento de empatia, de compartilhamento e de solidariedade toma seu lugar.

É claro que a tentativa de esboçar o que seria uma nova sociabilidade é apenas uma tentativa de apresentar alguns princípios que contribuam para a percepção de outros caminhos a serem caminhados com os faróis das experiências emancipatórias. Evidentemente, são caminhos valiosos em si mesmos, pois têm a marca de uma pedagogia crítica que aporta valores de vivências e de experimentações de uma escala espaço-tempo ancestral. Um retorno ao passado que fala de perto sobre a necessidade vital de elevação da consciência ecológica planetária. A perspectiva é o atendimento das necessidades humanas reais, dentro dos limites ecossistêmicos à base de constructos socioculturais, considerando as condições biogeofisicoquímicas onde se desenvolverem os novos processos econômicos.

Vale enfatizar, a Economia Ecológica é afirmada como uma pedagogia crítica que contém princípios que servirão para orientar os novos processos de interação entre economia, sociedade e a Natureza; e a Economia Solidária, como modo de organização das atividades produtivas, em estreita articulação com os princípios ecológicos.

As inovações tecnológicas seriam baseadas em conhecimentos científicos orientados para outra finalidade. Não é o lucro, nem a apropriação de seus benefícios por poucos. Mas sim pela busca de condições de vida plena de cada uma e de todas as pessoas. No lugar de atender às exigências da competição, as inovações tecnológicas seriam compartilhadas com todos os países, como uma demonstração da solidariedade internacional. No lugar da “divisão internacional do trabalho”, a divisão internacional da solidariedade; no lugar das trocas desiguais, o intercâmbio de conhecimentos e experiências. Nesse sentido, o modo de vida cultural desses países seria resgatado, junto com o prazer de viver que for próprio de suas respectivas sociedades.

Claramente, um amplo processo educativo voltado para a reprodução da vida em sociedade que aponta para um futuro discernível. Para tanto, a produção das condições materiais da vida terão que estar em consonância às leis que regulam os ecossistemas.

De acordo com as argumentações aqui elaboradas, o Planeta não reivindica salvação e a Natureza não está em crise. A civilização moderna sim. Por isso, não resta à humanidade outra saída para evitar sua extinção precoce: livrar-se definitivamente do modo de produção e de vida das sociedades modernas para que o Planeta continue sendo nossa casa comum por mais tempo.

Com a nova sociabilidade ampliam-se os espaços de liberdade, da democracia direta e dos cuidados com as pessoas e com os bens comuns. A nova sociabilidade revaloriza o passado e reacende as ancestralidades dos povos tradicionais; elimina a produção de supérfluos; descarta a produção midiática de espetáculos e coloca em cena as manifestações culturais genuínas. No lugar do “fim da história”, o início da história humana da humanidade.

Esse quadro de vida contribui para que as experiências ancestrais sejam percebidas como práticas de uma economia ecologicamente orientada, com processos regenerativos e mínimos efeitos entrópicos. Que a economia deve evoluir como um organismo social para atender às necessidades humanas reais, social e culturalmente determinadas.

Nesse sentido, os movimentos sociais que se estruturam com a perspectiva da emancipação humana – contra todos os tipos de discriminação e de injustiças, e que reconhece os limites ecossistêmicos – reúnem um potencial mobilizador de forças sociais e políticas capaz de se contrapor à correlação de forças avassaladoras que ameaçam a vida na Terra.

A ciência e a tecnologia terão que ser reorientadas para viabilizar processos de baixo carbono, para a produção de bens com longa durabilidade e passíveis de conserto. Reorientadas para o desenvolvimento de uma ciência experimental criativa e inclusiva que considere o saber ancestral acumulado pela humanidade.

A redução do tempo dedicado à produção material cria condições para que se tenha um modo de vida orientado para o ócio criativo e para o desenvolvimento de atividades superiores. O tempo dedicado às atividades produtivas terá que ser reduzido a um mínimo de modo que uma parte do tempo de vida seja dedicada à formação científica e tecnológica, e à educação física.

A finalidade da nova organização econômica e social será maximizar o tempo disponível para o ócio (ativo, e não receptivo) a ser usufruído por cada um e por todos os indivíduos. O tempo de usufruto da vida, e não o tempo de trabalho, é o indicador do momento de afirmação humana e a medida da riqueza. As relações sociais reificadas dariam lugar a uma existência emancipada do trabalho alienado. Nesse quadro de vida as pessoas terão possibilidades de serem outras: cuidando do ambiente natural, dedicando-se à formação artístico-científica e fazendo exercícios físicos para uma vida saudável.

Na nova organização, cada espécie desempenha um papel vital para manter a Terra na condição de nossa capa protetora. A espécie humana como centro da autoconsciência terá que agir para assegurar que seus modos de vida sejam consentâneos a essa condição. A nova sociabilidade deixará claro que a liberdade nas sociedades modernas é aparente e que a ilusão de que todas as pessoas alcançarão a felicidade pela via do consumismo, tem por contrapartida a ‘servidão’ de muitos e o privilégio de poucos. Uma causa sem esperança. Por esse caminho, a causa que muitos consideram utopismo será triunfante.
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Nota: * Nesse tempo de pandemia surgem inúmeras frases de efeito e termos imprecisos com o objetivo de explicar o que não é de entendimento amplo. Se a paz iguala as pessoas, é preciso criar uma terminologia que seja apaziguadora da insegurança individual e social. As ideias produzidas pelos interesses e desejos particulares servem para cumprir esse objetivo. Esse é o caso da expressão “novo normal” que surge antes de que algo seja dito sobre o “existente normal”. Com intensa contribuição das mídias de massa, o imaginário fervilha de desejos irrealizáveis, “Vai dar certo”; “sairemos dessa para uma melhor”: são exemplos de clichês que entorpecem as mentes, mas agitam os corações. O “novo normal” é uma tentativa de naturalizar o atual contexto histórico e social para que a realidade não seja pensada criticamente. Mesmo que não seja compreendida, a realidade é como ela se apresenta; é o que é, que assim terá que ser. O “normal” do pós-pandemia terá que ser como antes. As pessoas foram condicionadas a viver na insegurança, porque assim viveram e assim vivem. Tudo terá que voltar ao “normal”, mesmo que inseguro. Mas, o que mostra a atual crise sanitária? Que perspectivas ela projeta? Será que criar clichês ajuda a dar mais segurança social? Não existem outras formas de linguagem que ajudem a compreender os processos de rupturas inerentes às sociedades modernas?


Aécio Alves de Oliveira

aecioeeco@ufc.br

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